quinta-feira, 29 de julho de 2010

mais de Rinaldo


Se fosse desenhar todas
as criaturas que estão em
minha mente
Eu, em devaneio, certamente
que enlouqueceria e horrorizaria
um grande contingente.
(Rinaldo)


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Folha do 34
Nota de desaparecimento

Está desaparecido desde o dia 04 de dezembro de 1995, o Sr. Finesse, profissão papel higiênico, que residia temporariamente no guarda roupas do Sr. Rinaldo ou Nivaldo ou Liraldo. Enfim, o desaparecido trajava roupa branca e não sabe se defender sozinho. Ressaltando seus problemas e deixando clara a situação desta profissão (papel higiênico) que é:
“Quando não está no rolo está na merda.”
Solicitamos a quem tiver informações sobre o mesmo, que informe a seu empregador (Rinaldo, Nivaldo, Rivaldo, enfim...) que está sentindo a falta dos serviços por ele (P.H.) prestados.
(Rinaldo)

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Por que você não aceitaria um desenho assim?
Você sabia que nunca mais esta figura será feita novamente?
O papel vai ser outro, minha idade será outra.
As notícias do jornal homenzinho serão outras, a tinta será outra
e você não terá mais este brilho nos olhos de ter presenciado uma novidade.
As novidades ficam muito raras com o passar do tempo.

(Reizim)


terça-feira, 27 de julho de 2010

Andava...
Punha máscaras nas orelhas
Eram dois pares
O primeiro: toda rebuscada
Desenhei
O segundo: lisa
...

Buracos nos olhos, na boca
Os pinos quebraram
Pisados ou enferrujados
Sobrou uma
Do par da lisa
Fica guardada
Da orelha ao peito
Como broche
(edelvais/jul.10)


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Clarice Lispector: Restos do Carnaval
.
(trecho)
.
E as máscaras? Eu tinha medo, mas era um medo vital e necessário porque vinha de encontro à minha mais profunda suspeita de que o rosto humano também fosse uma espécie de máscara. À porta do meu pé de escada, se um mascarado falava comigo, eu de súbito entrava no contato indispensável com o meu mundo interior, que não era feito só de duendes e príncipes encantados, mas de pessoas com o seu mistério. Até meu susto com os mascarados, pois, era essencial para mim.

Depus a Máscara – (Álvaro de Campos)
Fernando Pessoa
.
Depus a máscara e vi-me ao espelho.
—Era a criança de há quantos anos.
Não tinha mudado nada…
É essa a vantagem de saber tirar a máscara.
É-se sempre a criança,
O passado que foi
A criança.
Depus a máscara, e tornei a pô-la.
Assim é melhor,
Assim sem a máscara.
E volto à personalidade como a um términus de linha.
.
.
.
.
TABACARIA - (Álvaro de Campos) Fernando Pessoa
.
(trecho)
.
Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.
.
.
As máscaras que se olham. José Saramago
.
(trecho)
.
Há vertigem neste jogo. As máscaras olham-se sabendo-se máscaras. Usam um olhar que não lhes pertence, e esse olhar, que vê, não se vê. Colocamos no rosto uma máscara e somos outro aos olhos de quem nos olhe. Mas de súbito descobrimos, aterrados, que, por trás da máscara que afinal não poderemos ser, não sabemos quem somos. Está portanto por saber quem é Fernando Pessoa.


domingo, 25 de julho de 2010

Conheci o Rinaldo, Reizim, em Viçosa, pelos anos de 1995/96. Quando de volta a Belo Horizonte, em 96, comprei camisetas para pintar, e pedi a ele alguns desenhos e escritos que pudesse reproduzir nas ditas. Vou mostrar um pouco do que ele me enviou.


desenho: Rinaldo

Jamais conseguirei narrar
o que vi naquela tarde...
Naves maiores que as
montanhas se aproximavam.
O som das vozes dos seres
que nelas viajavam, meu Deus,
era terrível.
O sol as incomodava,
e uma delas, com um
formato estarrecedor,
pulou sobre o sol e o
devorou.

(Rinaldo/93)


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desenho: edelvais

Onde o sol se põe
Aqui no barraco
Se se acorda
Na quietude
Das madrugadas de amanhecer
Ouve-se ao longe
Latidos
Mas,
Conversa de cães
Por todo canto tem
E,
O melhor
São os galos cantando
Anunciando um novo dia
Có có có ri cóóóóó

(edelvais/24 jul 10)

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Místicas

Mexendo numas pastas para selecionar desenhos, cartões ilustrados (furando buracos nabatidadoprego), escritos, que foram escaneados pelo querido irmão, encontrei um caderninho no meio, onde fiz várias anotações das reuniões, encontros, que participei em 2000/2001.
O escrito que vai, no alto da página, está escrito, Mística 17/março. Não lembro se foi usado em alguma das místicas que preparávamos.

Mulher:
Num momento nasceste
Uns creem que vieste duma costela
Outros do barro
Com qual cor vieste?
Branca invasora?
Amarela submissa?
Vermelha violada?
Ou
Negra escravizada?
Vieste gerar
Mamas, ventre, prenha
Geraste o quê?
Mulatos, marcianos, misturados, pardos e mestiços?

Mulher, tu és negra!
Acorrentaram teus braços
Teu pensamento, não
Amordaçaram tua boca
Tua voz, não
Semearam-te contra tua vontade
Mas tua geração tem tu no sangue
E tu gritas:
- Não somos escravas!
- Não precisamos de vossas leis!
- Parimos entes livres até a morte!

Alguns deles um dia pediram-te?
Ajudai-nos no açúcar.
Perguntaram-te?
Queres ter filhos?
Ou ofereceram-te flores ao invés de chicotes?
Não, nada disto.

O tempo andou
E te fez encontrar
Com a voz
Duma branca, duma amarela, duma vermelha
Gritando...


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Este outro que vai, uma poesia, usada em uma mística, num dos encontros da Consulta Popular, em 2008.


Poesia - Severino Ramos


(...) É possível sonhar
É possível construir e até mesmo destruir se preciso for,
para ser possível fazer de novo
É possível destruir as estruturas, sem destruirmo-nos internamente
(...) É possível fazer política, defender o projeto, conquistar hegemonia,
sem desfazer pessoas, sem quebrar princípios,
sem perder o encanto, sem perder a ternura
É possível fazer política, por simples amor ao projeto,
por acreditar na potencialidade das classes populares
É possível fazer arte-política, fazendo a política com arte
A política rimada com poesia, ritmada com a dança, feita com alegria
A política que gera a vida, que faz nascer cidadão
A política que faz crescer na consciência de ser gente
A política que traz o novo na vida do povo

A política que faz a Revolução
Quotidianamente,
Insistentemente,
Amantemente.
.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

som imagens letras

O Patrão Nosso de Cada Dia
.
Secos & Molhados
Composição: João Ricardo - Secos E Molhados
.
Eu quero o amor
Da flor de cactus
Ela não quis
Eu dei-lhe a flor
De minha vida
Vivo agitado
Eu já não sei se sei
De tudo ou quase tudo
Eu só sei de mim
De nós
De todo o mundo
Eu vivo preso
A sua senha
Sou enganado
Eu solto o ar
No fim do dia
Perdi a vida
Eu já não sei se sei
De nada ou quase nada
Eu só sei de mim
Só sei de mim
Só sei de mim
Patrão nosso
De cada dia
Dia após dia





Alguns escritos antigos
Não pense muito
As grades tem aço
Piores são as de carne

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Um pé de meia
Pendura-se à cabeceira
E ele diz:
Love me girl
Começa, pára
Começa, pára
E pára antes do fim
Mas...
One day, man
E lá vamos nós, juntos outra vez

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La chica está de muda para o exterior
Vamos tentar adultar-nos
E na querência de reavê-la
Você muda
Ou ela muda...
E mudas não ficaremos quando encontramos

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Catitas

Uma brincadeira
Jogada nas palafitas
Semente, fruto?
O que serias?
Ao alto mandá-las
Mandalas
Meias luas
Toras de madeiras
Ancoradas na orla

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Entusiasmei

Depois de ler lá no blogue Sinistras Bibliotecas do Professor Halem a homenagem ao dia mundial do rock, 13 de julho, deu vontade.

E mesmo não conhecendo alguns, e outros conhecendo, mas não escutando, da relação que ele fez, acrescento por minha conta mais estes:
Camisa de Vênus, Iron Maiden, The Animals, The Yardbirds, Ira!, Scorpions, Cazuza, Jethro Tull, Chuck Berry, Dire Straits, Johnny Rivers,...E olha que tem mais...


Comprei este disco, vinil, há mais de 10 anos, ele é e não é mais meu, pois não está mais comigo.
Quando fazia o programa Canção e Falação junto com o Fernando e o Luiz, na Rádio Comunitária Santê FM 102.5, fizemos uma promoção, quem ganhasse participaria de um programa conosco. O ganhador, mais um Fernando, foi lá, e no dia colocamos algumas canções do Deep Purple, trocando uma idéia sobre a banda. Tempo depois o Fernando também fazia o programa conosco. Um dia emprestei o disco para ele, e quando vi que ele tinha ficado o bastante para ter escutado, pedi de volta, ele falou que aquele não devolveria, desta forma está com ele até hoje.
Vai um som do disco.

The Gypsy
Deep Purple
Composição: Blackmore/Coverdale/Hughes/Lord/Paice

A Cigana (Tradução)
Diga-me, cigana, você pode me ver
Na sua bola de cristal
Te pergunto o que eu posso fazer
com minhas costas contra a parede
E eu não vou aguentar muito mais
Então em vim para você, minha amiga
Pois minha vida parece estar no fim

Eu já vim ve-lâ uma vez
A cem anos atrás
Você pegou minha mão e quebrou a magia
Que me faria partir
Mas meus anos se passaram tão lentamente
Então estou aqui de novo, minha amiga
Pois minha vida está no fim



Este outro som que vai, tive um pouco de trabalho para achar, não me lembrava do nome da música todo, só o show go on, e nem do nome do grupo. Mas quem procura acha.


sábado, 10 de julho de 2010

O Direito ao Delírio
Eduardo Galeano



Está a nascer o novo milénio. Não dá para levar o assunto demasiado a sério: ao fim e ao cabo o ano 2001 dos cristãos é também o ano 1379 dos muçulmanos, o 5114 dos maias e o 5762 dos judeus. Além disso, o novo milénio nasce no primeiro de Janeiro por obra e graça de um capricho dos senadores romanos, que em determinada altura decidiram romper com a tradição que mandava celebrar o ano novo no começo de cada primavera.

A contagem dos anos da era cristã provém ainda de outro capricho: um belo dia o papa de Roma decidiu datar o nascimento de Jesus, mesmo que ninguém pudesse precisar então em que data tinha ele nascido. O tempo ri-se dos limites que inventamos para construirmos a ficção de que ele nos obedece, mas o mundo inteiro celebra e teme essa espécie de fronteira. Milénio vai, milénio vem, a ocasião é, assim, propícia para que oradores de inflamada verve possam perorar acerca do destino da humanidade, e para que os arautos da ira de Deus possam anunciar o fim do mundo. O tempo, esse, lá continua sossegado a sua caminhada ao longo da eternidade e do mistério. Verdade seja dita, porém, a uma data assim, por mais arbitrária que ela seja, não há quem resista, e ninguém escapa afinal à tentação de tentar saber como será o tempo que será.

Vá-se lá saber porém como será. Possuímos uma única certeza: no século vinte e um, ainda que possamos estar aqui, seremos todos gente do século passado e, pior ainda, seremos gente do passado milénio. Não podemos todavia tentar adivinhar o tempo que será sem que tenhamos, pelo menos, o direito de imaginar aquele que queremos que seja. Em 1948 e em 1976, as Nações Unidas proclamaram extensas listas de direitos humanos, mas a imensa maioria da humanidade não tem senão o direito de ver, de ouvir e de calar. Que tal se começássemos a exercer o nunca proclamado direito de sonhar? Que tal se delirásemos por um pouco? Vamos então lançar o olhar para lá da infâmia, tentando adivinhar outro mundo possível.

No próximo milénio o ar estará limpo de todo veneno que não venha dos medos humanos e das humanas paixões. Nas ruas, os automóveis serão esmagados pelos cães. As pessoas não serão programadas por computador, nem compradas no supermercado, nem espiadas por televisor. O televisor deixará de ser o membro mais importante da família e será tratado como o ferro de engomar ou a máquina de lavar a roupa. As pessoas trabalharão para viver, em vez de viverem para trabalhar. Será incorporado nos códigos penais o delito de estupidez, que cometem todos aqueles que vivem para ter ou para ganhar, em vez de viverem apenas para viver, como canta o pássaro sem saber que canta e como brinca a criança sem saber que brinca. Em nenhum país serão presos os jovens que se recusem a cumprir o serviço militar. Os economistas não chamarão nível de vida ao nível de consumo, nem chamarão qualidade de vida à quantidade de coisas. Os cozinheiros deixarão de considerar que as lagostas gostam de ser cosidas vivas. Os historiadores deixarão de crer que existiram países que gostaram de ser invadidos. Os políticos não acreditarão mais que os pobres adoram comer promessas. A solenidade deixará de se julgar uma virtude e ninguém tomará a sério nada que não seja capaz de assumir. A morte e o dinheiro perderão os seus poderes mágicos, e nem por disfunção ou por acaso será possível transformar o canalha em cavalheiro virtuoso. Ninguém será considerado herói ou louco só porque faz aquilo que acredita ser justo, em vez de fazer aquilo que mais lhe convém. O mundo já não se encontrará em guerra contra os pobres, mas sim contra a pobreza, e a indústria militar não terá outro caminho senão declarar a falência. A comida não será uma mercadoria, nem a comunicação um negócio, porque a comida e a comunicação são direitos humanos. Ninguém morrerá de fome porque ninguém morrerá de indigestão. As crianças de rua não serão tratadas como se fossem lixo, porque não haverá crianças de rua. Os meninos ricos não serão tratadas como se fossem dinheiro porque não existirão meninos ricos. A educação não será um privilégio apenas de quem possa pagá-la. A polícia não será a maldição daqueles que não podem comprá-la. A justiça e a liberdade, irmãs siamesas condenadas a viverem separadas, voltarão a juntar-se, bem unidas ombro com ombro. Uma mulher, negra, será presidente do Brasil e outra mulher, negra também, será presidente dos Estados Unidos da América; uma mulher índia governará a Guatemala, e outra o Peru. Na Argentina, as loucas da Praça de Maio serão um exemplo de saúde mental, porque se negaram a esquecer em tempos de amnésia obrigatória. A Santa Madre Igreja corrigirá os erros das tábuas de Moisés, e o sexto mandamento mandará festejar o corpo. A Igreja ditará também outro mandamento que havia sido esquecido: "Amarás a natureza, da qual fazes parte". E serão reflorestados os desertos do mundo e os desertos da alma.

Os desesperados serão esperados e os perdidos serão encontrados, porque eles são aqueles que desesperaram de tanto esperar e os que se perderam de tanto procurar. Seremos compatriotas e contemporâneos de todos os que tenham desejo de justiça e desejo de beleza, tenham nascido onde tenham nascido e tenham vivido quando tenham vivido, sem que importem as fronteiras do mapa e do tempo. A perfeição continuará a ser o aborrecido privilégio dos deuses, mas, neste mundo imperfeito e exaltante, cada noite será vivida como se fosse a última e cada dia como se fosse o primeiro.

Dez.99

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Elas não são mocinhas

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Não é de hoje que fico invocada de ouvir os adúlteros, ôpis, adultos, adulterando, tentando eliminar a condição de criança das crianças. Querem de todo jeito acabar com a infância, com a espontaneidade, com a beleza da inocência e da sinceridade presente nas crianças, e transformá-las nuns trecos estranhos, influenciadas por tipos mais estranhos ainda, os ditos normais. É muita maldade! E dá-lhe tudo e quanto é tipo de propagandas onde enfiam as crianças, para venderem todo tipo de produto. É muita deturpação!
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Botamos duas filhas neste mundão, Júnia Liz e Elena Liz, e elas não são mocinhas, coisa nenhuma, ainda não. Elas são crianças, crianças, meninas, pequenas, pimpolhas, tutuzinhas, gracinhas, fofinhas, pituquinhas, enfim, crianças. Por onde vou com elas e ouvimos, oh! como elas estão mocinhas! Em resposta, desfaço o equívoco, não, elas são crianças.
Mocinhas, daqui a alguns anos, ainda, e tal e tal, e dou um sorriso.

Levando as duas para as Escolas, passamos por um carro estacionado, dentro, uma mulher e no banco de trás uma menininha de uns quatro anos, e na passagem ouvi a mulher dizer, mas você vai chorar na escola? Mas você já é uma mocinha!
Ah! Mas o sangue ferveu. Continuamos a andar e falei pras meninas, reforçando algumas conversas, de que quando alguém as tratasse por mocinhas, elas respondessem que não, não eram mocinhas, e sim, crianças. Só que desta vez fui mais longe.
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Meninas Liz, vou dizer uma coisa pra vocês, já expliquei como e quando você se tornarão mocinhas, então se algum adúltero, ôpis, adulto, virar pra alguma de vocês e falar, nossa, já é uma mocinha! Vocês podem responder, minha mãe disse que não sou mocinha, ainda, e que isto vai acontecer quando sair sangue da minha perereca. E se o tal arregalar os olhos, perguntem, olha, por que seus olhos estão arregalados?
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Mas mãe, não tenho coragem de falar assim.
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Ou então vocês podem dizer, serei mocinha quando minha menstruação chegar, até lá sou criança, menina.
(fev/2010)

E se meninos fossem, não seriam rapazes, muito menos rapazinhos.

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sexta-feira, 2 de julho de 2010

ré pé técos

clicando em algum, chega-se num
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Unidos pelo asterisco
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