quarta-feira, 26 de outubro de 2011

um som!

Ouvi este no Almanaque 68 da Sandrinha Camurça, gostei e trouxe um vídeo.



Nouvelle Vague - Dance with me 




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Dar um basta aqui não altera. A piração não tem fim.

Apenas um diferencial:
Bem menos saberão
Bem menos saberão
Bem menos saberão
Bem menos saberão
Bem menos saberão
Bem menos saberão
Limitar-se à aldeia
à aldeia
à aldeia
à aldeia
à aldeia
à aldeia
porém sempre uma 

As entrelinhas dizem:
Estou dentro de você
Mas quem sabe?
Não digo de
Estou dentro
Aonde?
Na frente 
No meio
Atrás 
Falam e não
Tá guardado prá fora
Quem entende?
É o que tá pegando
Me contradigo nas voltas


segunda-feira, 24 de outubro de 2011

e outros

sem datas, talvez de 97 ou 98.


Desire
Tudo fala, vestido, travestido.
Palavras não ditas exalam, articuladas em lábios mudos.
O cheiro dos gestos, e a dança do corpo em movimentos assimétricos.

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E eram vários anos espalhados pelo terreno verde. Em cada um, um escrito diferente. Num sonho contei-lhe o sonho. A realidade era os anos roubados cheios de poemas. A fantasia estava nas casas sobre a encosta da grama viva, reluzente... E o sentido? E o sentido?

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Tudo é um jogo: nada se perde, nada se ganha, tudo se devora.
Panteras com olhos de marfim...
Que estariam fazendo? – Apenas refletindo o quadro!

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As baixas neblinas das noites de inverno, um enigma a ser desvendado:
Sob a parca luz, senta-se no banco.
O túnel se faz de câmara, deserto. A praça em volta, deserta.
Vindo pelas pedras, iluminada espera. 


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Esta é a nova página da Sandra Camurça, Dona Moça do Refúgio:
http://almanaque68.tumblr.com/ Bem, acho que o novo blog vai ser mais uma misturança... (com o nome "almanaque", nem poderia ser diferente).



Trouxe este prá cá, tem outros no Toc!Toc!Toc!, mas bem mais lá mesmo, no ALMANAQUE 68.


MOÇA AZUL



sexta-feira, 21 de outubro de 2011

sem título

Foi escrito ontem de tarde.
Tento começar por um ponto.
Talvez por todas as noites, antes de me entregar aos sonhos, e pensar perguntando, o que será esta noite? Quem virá, aonde irei, o que verei?
Ou então, começo com um, pra eu me ler, e ir escrevendo que quando sento e me ponho em frente à tela e coloco meus dedos nas teclas, é tudo silêncio dos acordes, os sons são outros, da máquina funcionando, da rua, dos carros, dos pássaros, do vento, do cachorro, dos vizinhos, dos tlec, tlec, tlec. E penso, isso daqui não é um divã nem a agenda que fica guardada na bolsa. Porque, por mais que em momentos o íntimo externe, sempre tem mais lá nas entranhas, os podres, por exemplo, as mazelas e outros fundos.
Então continuo, buscando um início.
Talvez informar mais de onde vem os sons que aqui vão, como os ouvi, quando, em que situações, o que fazem comigo e o que sinto quando os ouço, não sei. Não sei se farei isto, não sei.
E tem hora que não sei mesmo. Mesmo combatendo com as meninas, quando elas nas dificuldades dizem, eu não sei, eu não consigo, digo que o não sei foi embora, sumiu, e que no lugar veio o vou tentar, vou experimentar, vou treinar, vou conseguir.
Mas termino assim, sem saber por onde começar. 
Às vezes queria só o meio.
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No final da tarde chegando em casa com as meninas fofas Liz, fui ver as mochilas, agendas, recados, tarefas e fui perguntando se tinham trocado os livros na Biblioteca da Escola, e elas respondendo que sim enquanto já ia vendo. Comentarei sobre o da Elena.






Como começa?
Silvana Tavano
Ilustrações de Elma








Bem, gostei até do livro, das ilustrações, achei lindo, fofo e cheio de imaginação.
Na contracapa informações sobre a escritora e ilustradora e a informação do endereço do blogue da Silvana: 

e ela escreve:


"DIÁRIOS DA BICICLETA

Nos dias em que sou atleta
Pedalo sem esquecer da meta
Nos dias em que sou poeta
É o vento que conduz minha bicicleta"

E achei este vídeo sobre o livro.



E o livro:



Como começa?

Silvana Tavano
Ilustrações de Elma
Cada coisa tem um jeito de começar.
Todo mundo sabe: as frases começam com palavras, e as palavras, com letras.
Muitas histórias começam com “Era uma vez”.
Na Escola, tem o primeiro dia de aula e o primeiro dia de férias.
Todo começo de mês é dia 1º  e os anos sempre começam em janeiro.
Será que o mundo começou num dia 1º de janeiro?
Cócegas, piada, palhaço de circo e amigo engraçado: tudo isso faz a risada começar!
O primeiro bocejo avisa que o sono está chegando.
Mas também pode ser só o começo de um monte de bocejos!
Certas coisas nem sempre começam sendo o que são: o pintinho começa sendo ovo, o sapo, sendo girino, e a borboleta, sendo uma lagarta.
E tem os começos que não aparecem: a árvore começa embaixo da terra e as nuvens encobrem o começo do céu.
Mas e o mar? Começa ou acaba na areia?
O vento também é um mistério: às vezes, começa antes da chuva, e de vez em quando começa por nada. É só vontade de ventar.
O que parece complicado quase sempre começa simples: o quadro vai surgindo depois do primeiro traço.
A sinfonia, depois do primeiro acorde; a invenção, depois do sonho.
Tem muitas coisas que só começam só por causa de uma vontade: um segredo começa quando a gente não conta nada.
Uma amizade, quando a gente quer contar tudo.
Para saber onde as coisas vão dar, só tem um jeito: COMEÇAR!

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

um som!

Sam Cooke – Wonderful World


terça-feira, 18 de outubro de 2011

um som!

Jeff Beck e companhia-  A day in the life 


A tradução não é minha.

Um Dia Na Vida

(açúcar, ameixa, biscoito... açúcar, ameixa, biscoito.)
Li as noticias hoje, oh garoto
Sobre um cara de sorte que se deu bem
E apesar das noticias serem tristes
Eu tive que rir
Eu vi a foto

Ele estourou a cabeça em um carro
Ele não percebeu que o sinal tinha fechado
Uma multidão de pessoas parou e olhou
Já tinham visto seu rosto
Ninguém tinha certeza se ele era da Casa dos Lordes

Eu vi um filme hoje, oh garoto
O Exercito Britânico tinha ganhado a guerra
Uma multidão virou as costas
Mas eu tive que olhar
Tendo lido o livro
Eu adoraria te excitar

Acordei, sai da cama
Passei um pente no cabelo
Desci e tomei uma xícara
Olhei pra cima, percebi que estava atrasado

Achei meu casaco, peguei meu chapéu
Cheguei ao ônibus em segundos
Subi e fumei um cigarro
Alguém falou e eu entrei em um sonho

Li as notícias hoje, oh garoto
quatro mil buracos em Blackburn, Lancashire
E apesar dos buracos serem pequenos
Eles tiveram que contar todos
Agora eles sabem quantos buracos são necessários pra encher o Albert Hall
Eu adoraria te excitar


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Outro som!!!!!

The Beatles - A Day In The Life





sábado, 15 de outubro de 2011

de anos atrás

talvez 96 ou 97.

Preciso ligar uma fonte estacionária de pensamentos. Supondo um absurdo: Uma espira circular com sua corrente tonta, girando, apenas do positivo para o negativo sem gerar campo algum.


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Num dezenove, ao abri-la, pensei: No onze que a mão acompanha quando queria o treze no jogo do resta um.

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As moléculas com seus giros – 3, 0 x 10m/s. Os dentes das engrenagens entraram pelos ponteiros. O círculo projeta sua sombra.

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Ontem conversávamos. A matéria não se sabe: Sumiu!!!! Decorada, enfeitada, ou simplesmente como veio. 


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Nem mais nem menos. A madeira, o ferro, o espelho. Imagens: bigodes, cabelos. Seres nus. Os homens no lago, as mulheres com tochas: fogo das noites. Pedras sobre pedras sob mesmo sei lá o que. E crianças ao redor. Muitas delas por aqui, ali e acolá, indo e vindo, pulando, correndo. De todo jeito elas sempre serão elas.

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

um som!

E este vai para Sandrinha Camurça e Lou Vilela, umas moças maneiras lá do Recife, arretadas toda vida.

Vai também pra quem é de curtir.



"Poesia não tem dono
Alegria não tem grife
Quando eu tiver cacife
Vou-me embora pro recife
Que lá tem um sol maneiro
Foi falando brasileiro
Que aprendi a imbolá"
(Zeca Baleiro)


segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Primeiras Estórias

João Guimarães Rosa

11
O espelho

         SE QUER seguir-me, narro-lhe; não uma aventura, mas experiência, a que me induziram, alternadamente, séries de raciocínios e intuições. Tomou-me tempo, desânimos, esforços. Dela me prezo, sem vangloriar-me. Surpreendo-me, porém, um tanto à-parte de todos, penetrando conhecimento que os outros ainda ignoram. O senhor, por exemplo, que sabe e estuda, suponho nem tenha idéia do que seja na verdade – um espelho? Demais, decerto, das noções de física, com que se familiarizou, as leis da óptica. Reporto-me ao transcendente. Tudo, aliás, é a ponta de um mistério. Inclusive, os fatos. Ou a ausência deles. Duvida? Quando nada acontece, há um milagre que não estamos vendo.

(...)

Ah, o tempo é o mágico de todas as traições... E os próprios olhos, de cada um de nós, padecem viciação de origem, defeitos com que cresceram e a que se afizeram, mais e mais. Por começo, a criancinha vê os objetos invertidos, daí seu desajeitado tactear; só a pouco e pouco é que consegue retificar, sobre a postura dos volumes externos, uma precária visão. Subsistem, porém, outras pechas, e mais graves. Os olhos, por enquanto, são a porta do engano; duvide deles, dos seus, não de mim. Ah, meu amigo, a espécie humana peleja para impor ao latejante mundo um pouco de rotina e lógica, mas algo ou alguém de tudo faz frincha para rir-se da gente... E então?
         Note que meus reparos limitam-se ao capítulo dos espelhos planos, de uso comum. E os demais – côncavos, convexos, parabólicos – além da possibilidade de outros, não descobertos, apenas, ainda? Um espelho, por exemplo, tetra ou quadridimensional? Parece-me não absurda, a hipótese. Matemáticos especializados, depois de mental adestramento, vieram a construir objetos a quatro dimensões, para isso utilizando pequenos cubos, de várias cores, como esses com que os meninos brincam. Duvida?

(...)

Temi-os, desde menino, por instintiva suspeita. Também os animais negam-se a encará-los, salvo as críveis excepções. Sou do interior, o senhor também; na nossa terra, diz-se que nunca se deve olhar em espelho às horas mortas da noite, estando-se sozinho. Porque, neles, às vezes, em lugar de nossa imagem, assombra-nos alguma outra e medonha visão. Sou, porém, positivo, um racional, piso o chão a pés e patas. Satisfazer-me com fantásticas não-explicações? – jamais. Que amedrontadora visão seria então aquela? Quem o Monstro?
         Sendo talvez meu medo a revivescência de impressões atávicas? O espelho inspirava receio supersticioso aos primitivos, aqueles povos com a idéia de que o reflexo de uma pessoa fosse a alma. Via de regra, sabe-se o senhor, é a superstição fecundo ponto de partida para a pesquisa. A alma do espelho – anote-a – esplêndida metáfora. Outros, aliás, identificam a alma com a sombra do corpo; e não lhe terá escapado a polarização: luz-treva. Não se costumava tapar os espelhos, ou voltá-los contra a parede, quando morria alguém da casa? Se, além de os utilizarem nos manejos da magia, imitativa ou simpática, videntes serviam-se deles, como da bola de cristal, vislumbrando em seu campo esboços de futuros fatos, não será porque, através dos espelhos, parece que o tempo muda de direção e de velocidade? Alongo-me, porém. Contava-lhe...

(...)

À medida que trabalhava com maior maestria, no excluir, abstrair e abstrar, meu esquema perspectivo clivava-se, em forma meândrica, a modos de couve-flor ou bucho de boi, e em mosaicos, e francamente cavernoso, como uma esponja. E escurecia-se. Por aí, não obstante os cuidados com a saúde, comecei a sofrer dores de cabeça. Será que me acovardei, sem menos? Perdoe-me, o senhor, o constrangimento, ao ter de mudar de tom para confidência tão humana, em nota de fraqueza inesperada e indigna. Lembre-se, porém, de Terêncio. Sim, os antigos; acudiu-me que representavam justamente com um espelho, rodeado de uma serpente, a Prudência, como divindade alegórica. De golpe, abandonei a investigação. Deixei, mesmo, por meses, de me olhar em qualquer espelho.
         Mas, com o comum correr cotidiano, a gente se aquieta, esquece-se de muito. O tempo, em longo trecho, é sempre tranquilo. E pode ser, não menos, que encoberta curiosidade me picasse. Um dia... Desculpe-me, não viso a efeitos de ficcionista, inflectindo de propósito, em agudo, as situações. Simplesmente lhe digo que me olhei num espelho e não me vi. Não vi nada. Só o campo, liso, às vácuas, aberto como o sol, água limpíssima, à dispersão da luz, tapadamente tudo. Eu não tinha formas, rosto? Apalpei-me, em muito. Mas, o invisto. O ficto. O sem evidência física. Eu era – o transparente contemplador?... Tirei-me. Aturdi-me, a ponto de me deixar cair numa poltrona.
         Com que, então, durante aqueles meses de repouso, a faculdade, antes buscada, por si em mim se exercitara! Para sempre? Voltei a querer encarar-me. Nada. E, o que tomadamente me estarreceu: eu não via os meus olhos. No brilhante e polido nada, não se me espelhavam nem eles!

(...)

         Pois foi que, mais tarde, anos, ao fim de uma ocasião de sofrimentos grandes, de novo me defrontei – não rosto a rosto. O espelho mostrou-me. Ouça. Por um certo tempo, nada enxerguei. Só então, só depois: o tênue começo de um quanto como uma luz, que se nublava, aos poucos tentando-se em débil cintilação, radiância. Seu mínimo ondear comovia-me, ou já estaria contido em minha emoção? Que luzinha, aquela, que de mim se emitia, para deter-se acolá, refletida, surpresa? Se quiser, infira o senhor mesmo.
         São coisas que se não devem entrever; pelo menos, além de um tanto. São outras coisas, conforme pude distinguir, muito mais tarde – por último – num espelho. Por aí, perdoe-me o detalhe, eu já amava – já aprendendo, isto seja, a conformidade e a alegria. E... Sim, vi, a mim mesmo, de novo, meu rosto, um rosto; não este, que o senhor razoavelmente me atribui. Mas o ainda-nem-rosto – quase delineado, apenas – mal emergindo, qual uma flor pelágica, de nascimento abissal... E era não mais que: rostinho de menino, de menos-que-menino, só. Só. Será que o senhor nunca compreenderá?
         Devia ou não devia contar-lhe, por motivos de talvez. Do que digo, descubro, deduzo. Será, se? Apalpo o evidente? Trebusco. Será este nosso desengonço e mundo o plano – intersecção de planos – onde se completam de fazer as almas?
         Se sim, a “vida” consiste em experiência extrema e séria; sua técnica – ou pelo menos parte – exigindo o consciente alijamento, o despojamento, de tudo o que obstrui o crescer da alma, o que a atulha e soterra? Depois, o “salto mortale”... – digo-o, do jeito, não porque os acrobatas italianos o aviventaram, mas por precisarem de toque e timbre novos as comuns expressões, amortecidas... E o julgamento-problema, podendo sobrevir com a simples pergunta: – “Você chegou a existir?”
         Sim? Mas, então, está irremediavelmente destruída a concepção de vivermos em agradável acaso, sem razão nenhuma, num vale de bobagens?  Disse. Se me permite, espero, agora, sua opinião, mesma, do senhor, sobre tanto assunto. Solicito os reparos que se digne dar-me, a mim, servo do senhor, recente amigo, mas companheiro no amor da ciência, de seus transviados acertos e de seus esbarros titubeados. Sim?



quinta-feira, 6 de outubro de 2011

uma história

Transcrevo esta de um exemplar da revista 

Programa Semeando
 Semeando Diálogos 
[Edição para o professor]
III e IV Ciclos do Ensino Fundamental
Educação de Jovens e Adultos
Sustentabilidade e Meio Ambiente - 2009

O contador de histórias
(conto de tradição oral)


     Conta-se que, certa vez, chegou a uma pequena cidade um viajante que trazia consigo uma valise contendo alguns pertences e uns poucos instrumentos de trabalho, que lhe garantiriam o sustento do dia-a-dia.
     Além de artesão, ele era também um grande contador de histórias. Sendo assim, instalou-se sem dificuldades naquela comunidade.
     Durante o dia, trabalhava o barro e com ele produzia objetos magníficos que lhe possibilitavam a sobrevivência. Ao cair da noite, sentava-se sob a árvore secular da praça e contava histórias a todos que tivessem ouvidos disponíveis e almas sedentas de aprender com seus personagens.
     À medida que o tempo passava, a audiência aumentava, e aqueles que antes apenas escutavam agora contavam também. Todos começaram a ficar atentos aos próprios sonhos e às coisas que lhes aconteciam no dia-a-dia, na certeza de que assim teriam também expereiências a trocar, em forma de grandes aventuras.
     O tempo passou mais ainda e, pouco a pouco, assim como ele, as pessoas também foram mudando. Até que chegou o momento em que ninguém mais se interessava pelas histórias contadas sob a generosa árvore da praça.
     O jovem homem de outrora era agora um ancião de cabelos brancos e costas arqueadas. Mas sua rotina permanecia a mesma: durante o dia, transformava o barro; ao cair da noite, contava histórias. Só que agora contava para si mesmo, pois ninguém se aproximava.Todos tinham muito que fazer em seus pequenos mundos particulares. Tempo não se trocava mais por experiências e encantamento; trocava-se por dinheiro. Assim sendo, ouvir um velho contador de histórias, que falava de aventuras, de ensinamentos milenares, de heróis que com inteligência venciam dragões... ah não! Seria perda de tempo. Além disso, é verdade que as novas lojas da cidade com suas vitrines tentadoras faziam sonhar mais que as histórias do velho.
     Chegou então um inverno rigoroso. Numa boca de noite que se anunciava gelada, o velho, na mesma hora de sempre, colocou-se a postos e começou a se contar histórias. Ria sozinho e se surpreendia sozinho, com tudo o que contava para si mesmo.
     As pessoas corriam de um lado para outro sem lhe dar atenção. Foi quando algumas crianças, incomodadas com a situação do velho, aproximaram-se dele e disseram:
     - "Mas, vovô, com tanto frio por que não volta para casa? Não vê que ninguém mais quer escutar suas histórias? Por que continua contando?"
     - "Antes", respondeu o velho, "quando era jovem, eu contava histórias para mudar o mundo: queria torná-lo mais belo. Agora, solitário, eu me conto histórias para que o mundo não me mude."

Fonte: Caram, Cecília Andrés e Matos, Gislayne Avelar. Caderno de Texto. Projeto Convivendo com Arte. BH/MG. 

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Um Som!!!!!

EDERALDO GENTIL - O OURO E A MADEIRA


sábado, 1 de outubro de 2011

Sobre a modernidade

A Caverna - José Saramago

pág.: 16

Entre as barracas e os primeiros prédios da cidade, como uma terra-de-ninguém separando duas facções enfrentadas, há um largo espaço despejado de construções, porém, olhando  com um pouco mais de atenção, percebe-se no solo uma rede entrecruzada de rastos de tractores, certos alisamentos que só podem ter sido causados por grandes pás mecânicas, essas implacáveis lâminas curvas que, sem dó nem piedade, levam tudo por diante, a casa antiga, a raiz nova, o muro que amparava, o lugar de uma sombra que nunca mais voltará a estar. No entanto, tal como sucede nas vidas, quando julgávamos que também nos tinham levado tudo por diante e depois reparámos que afinal nos ficara alguma coisa, igualmente aqui uns fragmentos dispersos, uns farrapos emporcalhados, uns restos de materiais de refugo, umas latas enferrujadas, umas tábuas apodrecidas, um plástico que o vento traz e leva, mostram-nos que este território havia estado ocupado antes pelos bairros de excluídos. Não tardará muito que os edifícios da cidade avancem em linha de atiradores e venham assenhorear-se do terreno, deixando entre os mais adiantados deles e as primeiras barracas apenas uma faixa estreita , uma nova terra-de-ninguém, que assim ficará enquanto não chegar a altura de se passar à terceira fase.

pág.: 23

Submisso, dirigiu-se ao subchefe da recepção, Pode dizer-me o que é que fez que  as vendas tivessem baixado tanto, Acho que foi o aparecimento aí de umas louças de plástico a imitar o barro, imitam-no tão bem que parecem autênticas, com a vantagem de que pesam muito menos e são muito mais baratas, Não é a razão para que se deixe de comprar as minhas, o barro sempre é o barro, é autêntico, é natural, Vá dizer isso aos clientes, não quero afligi-lo, mas creio que a partir de agora a sua louça só interessará a colecionadores, e esses são cada vez menos.

pág.: 27

Não foi por casualidade que a palavra feliz surgiu aí atrás, de facto é o mínimo que podemos dizer da expressão de Cipriano Algor, que, olhando-o agora, ninguém acreditaria que só lhe compraram metade da carga que tinha levado ao Centro. Mau foi ter-lhe voltado outra vez à lembrança, quando dois quilómetros adiante penetrou na Cintura Industrial, o bruto revés comercial sofrido. A ominosa visão das chaminés a vomitar rolos de fumo deu-lhe para se perguntar em que estupor de fábrica daquelas estariam a ser produzidos os estupores das mentiras de plástico, maliciosamente fingidas à imitação de barro, É impossível, murmurou, nem o som nem o peso se lhe podem igualar, e há ainda a relação entre a vista e tacto que li já não sei onde, a vista que é capaz de ver pelos dedos que estão a tocar o barro, os dedos que, sem lhe tocarem, conseguem sentir o que os olhos estão a ver.

pág.: 28

Na orla da Cintura Industrial havia umas quantas modestas manufacturas que não se percebia como tinham podido sobreviver à gula de espaço e à múltipla variedade de produção dos modernos gigantes fabris, mas o facto era que ali estavam, e olhá-las à passagem sempre tinha sido uma consolação para Cipriano Algor quando, em algumas horas mais inquietas da vida, lhe dava para futurar sobre os destinos da sua profissão. Não vão durar muito, pensou, desta vez referia-se às manufacturas, não ao futuro da actividade oleira, mas foi só porque não se deu ao trabalho de reflectir durante tempo suficiente, sucede isto muitas vezes, achamos que já se pode afirmar que não vale a pena esperar conclusões só porque resolvemos parar no meio do caminho que nos levaria a elas.

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O Som!!!!!


Planeta Sonho - 14 Bis

das participações

com imenso prazer estarei lá.