sábado, 1 de outubro de 2011

Sobre a modernidade

A Caverna - José Saramago

pág.: 16

Entre as barracas e os primeiros prédios da cidade, como uma terra-de-ninguém separando duas facções enfrentadas, há um largo espaço despejado de construções, porém, olhando  com um pouco mais de atenção, percebe-se no solo uma rede entrecruzada de rastos de tractores, certos alisamentos que só podem ter sido causados por grandes pás mecânicas, essas implacáveis lâminas curvas que, sem dó nem piedade, levam tudo por diante, a casa antiga, a raiz nova, o muro que amparava, o lugar de uma sombra que nunca mais voltará a estar. No entanto, tal como sucede nas vidas, quando julgávamos que também nos tinham levado tudo por diante e depois reparámos que afinal nos ficara alguma coisa, igualmente aqui uns fragmentos dispersos, uns farrapos emporcalhados, uns restos de materiais de refugo, umas latas enferrujadas, umas tábuas apodrecidas, um plástico que o vento traz e leva, mostram-nos que este território havia estado ocupado antes pelos bairros de excluídos. Não tardará muito que os edifícios da cidade avancem em linha de atiradores e venham assenhorear-se do terreno, deixando entre os mais adiantados deles e as primeiras barracas apenas uma faixa estreita , uma nova terra-de-ninguém, que assim ficará enquanto não chegar a altura de se passar à terceira fase.

pág.: 23

Submisso, dirigiu-se ao subchefe da recepção, Pode dizer-me o que é que fez que  as vendas tivessem baixado tanto, Acho que foi o aparecimento aí de umas louças de plástico a imitar o barro, imitam-no tão bem que parecem autênticas, com a vantagem de que pesam muito menos e são muito mais baratas, Não é a razão para que se deixe de comprar as minhas, o barro sempre é o barro, é autêntico, é natural, Vá dizer isso aos clientes, não quero afligi-lo, mas creio que a partir de agora a sua louça só interessará a colecionadores, e esses são cada vez menos.

pág.: 27

Não foi por casualidade que a palavra feliz surgiu aí atrás, de facto é o mínimo que podemos dizer da expressão de Cipriano Algor, que, olhando-o agora, ninguém acreditaria que só lhe compraram metade da carga que tinha levado ao Centro. Mau foi ter-lhe voltado outra vez à lembrança, quando dois quilómetros adiante penetrou na Cintura Industrial, o bruto revés comercial sofrido. A ominosa visão das chaminés a vomitar rolos de fumo deu-lhe para se perguntar em que estupor de fábrica daquelas estariam a ser produzidos os estupores das mentiras de plástico, maliciosamente fingidas à imitação de barro, É impossível, murmurou, nem o som nem o peso se lhe podem igualar, e há ainda a relação entre a vista e tacto que li já não sei onde, a vista que é capaz de ver pelos dedos que estão a tocar o barro, os dedos que, sem lhe tocarem, conseguem sentir o que os olhos estão a ver.

pág.: 28

Na orla da Cintura Industrial havia umas quantas modestas manufacturas que não se percebia como tinham podido sobreviver à gula de espaço e à múltipla variedade de produção dos modernos gigantes fabris, mas o facto era que ali estavam, e olhá-las à passagem sempre tinha sido uma consolação para Cipriano Algor quando, em algumas horas mais inquietas da vida, lhe dava para futurar sobre os destinos da sua profissão. Não vão durar muito, pensou, desta vez referia-se às manufacturas, não ao futuro da actividade oleira, mas foi só porque não se deu ao trabalho de reflectir durante tempo suficiente, sucede isto muitas vezes, achamos que já se pode afirmar que não vale a pena esperar conclusões só porque resolvemos parar no meio do caminho que nos levaria a elas.

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O Som!!!!!


Planeta Sonho - 14 Bis

2 comentários:

Jorge Pimenta disse...

querida amiga,
poucas pessoas conhecem o ser humano como josé saramago o sabia. não, não era apenas um escritor, um filósofo, um jornalista... era sobretudo um humanista que é a melhor forma de tudo dizer. esta narrativa em torno do plástico e do barro mais não é do que a alegoria daquilo em que hoje nos tornamos, verdade?
beijinho, vais!

Vais disse...

Ei, Jorge,
também é esta a impressão que tenho dele, um conhecedor a fundo do ser humano.
Tem aqui outras passagens de A Caverna, e noutros comentários coloco que é um livro que mexeu, tocou de forma bem impressionante, muito mais do que os outros que li dele, pelo menos até então.
Venho do interior e gostava quando criança de fazer coisas com barro.

é sempre bom ver você por aqui
beijos