quinta-feira, 21 de julho de 2011

ESTRELA DA VIDA INTEIRA

MANUEL BANDEIRA

MADRIGAL MELANCÓLICO

O que eu adoro em ti,
Não é a tua beleza.
A beleza, é em nós que ela existe.
A beleza é um conceito.
E a beleza é triste.
Não é triste em si,
Mas pelo que há nela de fragilidade e de incerteza.

O que eu adoro em ti,
Não é a tua inteligência.
Não é o teu espírito sutil,
Tão ágil, tão luminoso,
- Ave solta no céu matinal da montanha.
Nem a tua ciência
Do coração dos homens e das coisas.

O que eu adoro em ti,
Não é a tua graça musical,
Sucessiva e renovada a cada momento,
Graça aérea como o teu próprio pensamento,
Graça que perturba e que satisfaz.

O que eu adoro em ti,
Não é a mãe que já perdi.
Não é a irmã que já perdi.
E meu pai.

O que eu adoro em tua natureza,
Não é o profundo instinto maternal
Em teu flanco aberto como uma ferida.
Nem a tua pureza. Nem a tua impureza.
O que eu adoro em ti - lastima-me e consola-me!
O que eu adoro em ti, é a vida.

(11 de junho de 1920)


CHAMA E FUMO

Amor - chama, e, depois, fumaça...
Medita no que vais fazer:
O fumo vem, a chama passa...


Gozo cruel, ventura escassa,
Dono do meu e do teu ser,
Amor - chama, e, depois, fumaça...


Tanto ele queima! e, por desgraça,
Queimado o que melhor houver,
O fumo vem, a chama passa...


Paixão puríssima ou devassa,
Triste ou feliz, pena ou prazer,
Amor - chama, e, depois, fumaça...


A cada par que a aurora enlaça, 
Como é pungente o entardecer!
O fumo vem, a chama passa...


Antes, todo ele é gosto e graça.
Amor, fogueira linda a arder!
Amor - chama, e, depois, fumaça...


Porquanto, mal se satisfaça
(Como te poderei dizer?...),
O fumo vem, a chama passa...


A chama queima... O fumo embaça.
Tão triste que é! Mas... tem de ser...
Amor?... - chama, e, depois, fumaça:
O fumo vem, a chama passa...


(Teresópolis, 1911)


POEMETO IRÔNICO

O que tu chamas tua paixão,
É tão somente curiosidade.
E os teus desejos ferventes vão
Batendo as asas na irrealidade...

Curiosidade sentimental
Do seu aroma, da sua pele.
Sonhas um ventre de alvura tal,
Que escuro o linho fique ao pé dele.

Dentre os perfumes sutis que vêm
Das suas charpas, dos seus vestidos,
Isolar tentas o odor que tem
A trama rara dos seus tecidos.

Encanto a encanto, toda a prevês.
Afagos longos, carinhos sábios,
Carícias lentas, de uma maciez
Que se diriam feitas por lábios...

Tu te perguntas, curioso, quais
Serão seus gestos, balbuciamento,
Quando descerdes nas espirais
Deslumbradoras do esquecimento...

E acima disso, buscas saber
Os seus instintos, suas tendências...
Espiar-lhe na alma por conhecer
O que há sincero nas aparências.

E os teus desejos ferventes vão
Batendo as asas na irrealidade...
O que tu chamas tua paixão
É tão-somente curiosidade.


8 comentários:

sandra camurça disse...

Outro pernambucano arretado! Eita terra fértil, esse meu Pernambuco! :)
Hoje tou bairrista toda, rs...
Beijos

Assis Freitas disse...

essa menina é só de brincadeira, ela só lê Bandeira, só lê Bandeira


beijo

dani carrara disse...

agradecida pela leitura.

também volto que gostei muito daqui...

bjos

Andressa disse...

Madrigal é sublime.

Vais disse...

Ei, Sandrinha,
terra fértil que só vendo, lendo ouvindo e escutando pra saber
Chama e Fumo é muito duca de da hora

beijos


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Assis,

Seja na Amaralina ou na Ribeira

beijo


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Seja bem vinda Dani
uai moça sinta-se à vontade
agradecida os gostos e também sua presença
e volte sempre que rolar

beijo pra você


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Bem vinda Andressa

:) Madrigal é sublime :)

volte sempre que rolar
Grata pela visita

beijo

Cris de Souza disse...

assim me deixas sem ar...

que maravilha!

beijo, querida vais.

Jorge Pimenta disse...

querida vais,
bandeira é território jamais estéril, verdade?
um abraço, menina!

Vais disse...

É um sem ar de maravilhar, também fico :)

beijinhos, moça Cris-tal


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Bonito demais Jorge, tenho lido Estrela da Vida Inteira com muito prazer.
beijo grande pra ti