domingo, 3 de abril de 2011

cansei de mim, trago ele:

Fernando Pessoa

O que há em mim é sobretudo cansaço -
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.

A sutileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto em alguém,
Essas coisas todas -
Essas e o que falta nelas eternamente -;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.

Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada -
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...

E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...
Para mim só um grande, um profundo,

E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço,
Íssimo, íssimo, íssimo,
Cansaço...
.
.
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Fernando Pessoa

Eu, eu mesmo...
Eu, cheio de todos os cansaços
Quantos o mundo pode dar. -
Eu...
Afinal tudo, porque tudo é eu,
E até as estrelas, ao que parece,
Me saíram da algibeira para deslumbrar crianças...
Que crianças não sei...
Eu...
Imperfeito? Incógnito? Divino?
Não sei...
Eu...
Tive um passado? Sem dúvida...
Tenho um presente? Sem dúvida...
Terei um futuro? Sem dúvida...
A vida que pare de aqui a pouco...
Mas eu, eu...
Eu sou eu,
Eu fico eu,
Eu...

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8 comentários:

sandra camurça disse...

Essa postagem veio a calhar pra mim. Tb ando cansada...
Beijo, querida

Jorge Pimenta disse...

o cansaço é apenas o disjuntor principal do nosso intrincado sistema eléctrico.
pessoa, o disjuntor para todo o cansaço!
beijos, amiga!

Jens disse...

Eu andava de saco cheio de mim. Mas já fiz as pazes comigo mesmo. Ao fim e ao cabo, eu me amo. E também alguns dos meus quase semelhantes.

Beijo, Feiticeira.

Vais disse...

Fazer as pazes com o próprio ser, é ficar de bem com o espelho, e quando tô por demais invocada o melhor é nem dá de cara com o dito cujo.
mas passa, né não?
beijinho, querido
e bomdimaisdaconta de saber das boas notícias

Vais disse...

Ai Sandrinha,
nem me fale, ou fale então
beijo doce prati

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Ei, Jorge
Sentir e adentrar nas palavras de Fernando Pessoa é algo que fico sem muitas expressões
Beijo pra você

Loba disse...

Vais!
putz, qtos post que eu perdi! vim aqui um dia e só havia o som... como não consegui ouvir, saí pra voltar mais tarde. eis que o mais tarde transbordou! rs...mas nunca é tarde né?
vendo/lendo o papel cor-de-rosa fiquei pensando num outro poema de Pessoa - Tabacaria. tem lá um pouco de Alvaro de Campos, né?
qto a estes... ando tão de bem comigo mesma que o espelho tem sido meu melhor amigo, acredita? rs...
beijo, queridona!

Janaina Cruz disse...

Como no Pessoa há também em mim, um cansaço de deixar para trás o que poderia ter sido e não fui, um cansaço, de deixar que a vida muitas vezes passe em branco… Ah, isso me cansa.

Mas há esperanças em volta de mim...rs

Abraços Vais e ótima semana pra ti.

Vais disse...

Loba,
pois é, cê viu? o troço rendeu.
Sempre que pego no livro que temos aqui de poesias do Fernando Pessoa, leio Tabacaria.
E a caminho do espelho, vou cantando, espelho fofo espelho lindo espelho querido
beijos, querida dos uivos vermelhos

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Olá, Janaina,
o lance é quando o cansaço não é físico e o coração fica apertadinho
esperança é um bichinho verde e verde é vida
e sempre vale sua presença
beijos querida e tudo de bom pra ti também