quarta-feira, 30 de abril de 2008

sonhos

Num movimento de rotação
rodopio ante o impacto dum jato d’água:
tamanho natural
A mangueira a mulher a tinha segura nas mãos
Em pêlo a parede ampara-me
Água racionada.
Sêde tenho.
Alguém num canto morre por tudo
A terra:
Sêca, dura, torrões formam-se
” Reguem-me, frutifiquem-me, reproduzam-me, colham-me,
pois se assim for, serão compensados .”

(2001)




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Fazer retas sucintas...
Soldados senhores guardiães
permanecem na guarita.
E do lado de fora alguns estão...
Nua,
e tão nua escondo-me
Barram-me a entrada
- Gosto das alturas!
- Vim aqui escrever sonhos!
O lago das águas, absorvente das cores,
estendia-se...
Assim como estava, aguardava repreendida,
quando colocaram-me panos.
E a noite densa guardava a torre
'Um primo já morto dizia-me ter derramado lágrimas'
Enquanto esperava terminarem as conversações
Para as permissões, as embarcações...
Admirava serena a quietude e escuridão do lago
E pensava no porquê de estarmos ali
E no que faríamos dali por diante...
Sem estacas, cruzes, réstia
Ou mesmo a dita água-benta
Os vampiros da Noruega sabiam que chegaríamos.

(2001)

domingo, 27 de abril de 2008

O trem bateu aqui

Segura do tranco
Do mandado pra dentro
Da onda do efeito colateral
Amigos reais virtuais imaginários
Amizade
Tudo ótimo, amiga ajuda, e como...
A colega também
Uma vira amiga
Isto é hierarquia
A gente aprende
Não assimila
Um pressuposto ensina
ensinaprendensinaprende
De trocas muda inter cambiar
Tem umas questões aí que não saco
Corrente desligada no bagulho
Busco amigos
Reais virtuais
Expressos impressos
Ilusos
As posições determinantes
Das dua listas
Das, digo, dicot o mias
Não derrubam muros
Nem justificam a esculhambação
Porque o Bezerra e da Silva canta
E por falar em safado
Onde anda você? (Você)
Para quem não é safado
não tem nada a ver ...
E dá éLe pra o limite de éfe de xis
quando xis tende
ao mais infinito ou menos infinito
Um passa uma recebe
O resto, nada
Guarda este anel bem guardadinho
Não deixa ninguém vê não...
Tem amigo que força a amizade
Mas,
Amizade é isso,
cê não tem nada com isso
andu andu andu ...
com uma vassoura na mão, canto
varre, varre, vassourinha
a bandalheira pra bem longe...
e o atirei o pau no gato
gutural cabeçadas
Tem hora, não há processamento
aqueeeeeele barulhiiiiiiinho
da fiiiiiiicha, demooooora...
Ah! Tapada, tomou pancada
Não importa se é
Um não sabido
Um sabido perdido
Nos confins da massa
Fazer o quê?
Imediatamente?
Finjo de égua
Contrações maxifacemusculares
A mão estendida
- Muito prazer, Rouxinol!


O SOOOOOOMMMM!

Vamo batê de dvd, este, no caso o meu,
é tão pirata que, nem o nome escrito no disco tem,
não por isto, colocarei.
Tá valendo e como. Guitarras não faltam,
rasgando os ares dentro e os que entravam,
e quando saiam não eram mais os mesmos.

Roger Waters In the flash Live Oregon 2000

quarta-feira, 23 de abril de 2008

As Cidades Invisíveis Ítalo Calvino

As Cidades e as Trocas 2

Em Cloé, cidade grande, as pessoas que passam pelas ruas não se reconhecem. Quando se vêem, imaginam mil coisas a respeito umas das outras, os encontros que poderiam ocorrer entre elas, as conversas, as surpresas, as carícias, as mordidas. Mas ninguém se cumprimenta, os olhares se cruzam por um segundo e depois se desviam, procuram outros olhares, não se fixam.
Passa uma moça balançando uma sombrinha apoiada no ombro, e um pouco das ancas, também. Passa uma mulher vestida de preto que demonstra toda a sua idade, com os olhos inquietos debaixo do véu e os lábios tremulantes. Passa um gigante tatuado; um homem jovem com os cabelos brancos; uma anã; duas gêmeas vestidas de coral. Corre alguma coisa entre eles, uma troca de olhares como se fossem linhas que ligam uma figura à outra e desenham flechas, estrelas, triângulos, até esgotar num instante todas as combinações possíveis, e outras personagens entram em cena: um cego com um guepardo na coleira, uma cortesã com um leque de penas de avestruz, um efebo, uma mulher-canhão. Assim, entre aqueles que por acaso procuram abrigo da chuva sob o pórtico, ou aglomeram-se sob uma tenda do bazar, ou param para ouvir a banda na praça, consumam-se encontros, seduções, abraços, orgias, sem que se troque uma palavra, sem que se toque um dedo, quase sem levantar os olhos.
Existe uma contínua vibração luxuriosa em Cloé, a mais casta das cidades. Se os homens e as mulheres começassem a viver os seus sonhos efêmeros, todos os fantasmas se tornariam reais e começaria uma história de perseguições, de ficções, de desentendimentos, de choques, de opressões, e o carrossel das fantasias teria fim.

segunda-feira, 21 de abril de 2008

Seu Maurício e Sandrinha Camurça

Já que não posso ir a Recife e dar um forte abraço na que se tornou uma querida amiga, faço esta homenagem com todo carinho à Sandrinha e seu pai, e mando esta canção, uma das que canto para minhas meninas dormirem. Beijo imenso no coração por todas as palavras que já me disse.

Cebola Cortada
Fagner
Composição: Petrúcio Maia / Clôdo

O Orvalho da noite
Brinca na luz do luar
Quem acredita em sereias
Sabe os segredos do mar
A cachoeira cantando
É a canção natural
Sempre lembrando pra gente
Que amar nunca faz mal
Teu amor é cebola cortada meu bem
Que logo me faz chorar
Teu amor é espinho de mandacaru
Que gosta de me arranhar
Teu olhar é cacimba barrenta meu bem
Que eu gosto de espiá

sexta-feira, 18 de abril de 2008

senti falta


d'O SOOOMMMMM!!

Trouxe a capa da lastfm,

o clique é nela.



na terra de ninguém mora ninguém
porque se morasse alguém
não seria mais terra de ninguém
e sim
terra de alguém
o alguém é um
o ninguém é ninguém
e
o ninguém só é um elemento
quando unitário
__________________

navegando nas areias do tempo
o ônibus vira uma balsa
começa a voar
ninguém vê
ninguém sente
nas montanhas
a areia escorre
por entre os dedos
a água forma
vales nas dunas
e o mar
ah o mar
está bem debaixo de nós
(D/96)

quinta-feira, 10 de abril de 2008

datas e carta

10 de abril de 1919, é assassinado em Cuernavaca, México, um grande líder, um lutador pela reforma agrária, um guerrilheiro da terra, Emiliano Zapata.

DA LAMA AO CAOS
Chico Science / Nação Zumbi
Monólogo ao Pé do Ouvido
O homem coletivo sente a necessidade de lutar
O orgulho, a arrôgancia, a glória
Enche a imaginação de domínio
São demônios os que destroem o poder
Bravio da humanidade
Viva Zapata!Viva Sandino!Viva Zumbi
Antônio conselheiro!
Todos os panteras negras
Lampião sua imagem e semelhança
Eu tenho certeza eles também cantaram um dia.

17 de abril de 1996, massacre em Eldorado dos Carajás, Pará. Dezenove sem-terras foram assassinados e mais de 100 pessoas ficaram feridas.

Resposta à carta de Vítor E. F. Mendezes-Boa Esperança/MG. Publicada na coluna ‘cartas à redação’, em 27 de setembro de 2000.

Resposta a Vítor
Não me admiraria você ter sido eleitor e apoiar o atual presidente com seu bando de puxa-sacos e escravos dos EUA.
Não me admiraria você achar bonito quando o papa abençoou os tanques destinados a matar milhões, na segunda guerra mundial.
Não me admiraria você querer a volta da ditadura implantada no Brasil, quando inocentes foram mortos e calados, quando generais e coronéis trancafiaram a liberdade juntamente com aqueles que a tinham como bandeira da democracia.
Aliás, não me admiraria você ser um desses, um filho desses, um parente desses assassinos que se vangloriam até hoje de seus atos, e acham ter prestado algo ao Brasil e à humanidade.
Sinto vergonha de pertencer à mesma raça que você!
Dezenove pessoas, cidadãos, foram brutalmente, friamente assassinados em Eldorado dos Carajás, e muitos e muitas ainda o são.
Enfim, não me admiraria você ter tatuadas na testa a suástica alemã e a bandeira dos Estados Unidos da América.

Depois da revisão feita pelo amigo Mauro, esta carta-resposta, entreguei-a, poucos dias depois, na recepção da sede do jornal. Qual não foi minha surpresa, quando dias mais tarde, o amigo e companheiro Jack, leitor assíduo, me chega com o jornal e a carta publicada.

sexta-feira, 4 de abril de 2008

perfis

O rato não me dá a leveza de um lápis ou de um pincel.
Nunca pintei telas, minhas pinturas, desenhos, resumiam-se, e ainda hoje, a papéis, panos, objetos de madeira, garrafas, e na maioria das vezes utilizando ‘riscos’ prontos.
Há uns dez anos, conheci um artista plástico, num dos encontros, levei alguns de meus desenhos e pedi a ele uma opinião, depois de vê-los, disse-me - seus desenhos são limpos. Na época e muito tempo depois, ainda não entendia o que isto significava, ele disse também – você precisa encontrar seu traço. A partir de então comecei a prestar atenção naquilo que poderia identificar como meu traço. Devido às crianças existentes na casa, as paredes fazem às vezes de papel, e numa noite de fevereiro deste ano, peguei um pincel, um potinho de tinta verde e fui até uma delas, do lado de fora – a noite me fascina – comecei a pintar. Quando terminei, lá estava o perfil do cabelo espetado, cru, apenas os contornos verdes na parede. Entrei, e me veio uma poesia, Verdade, já havíamos feito, idéia da amiga e companheira Diva, uma mística com ela.
Com isso, vieram vários perfis.

Verdade

A porta da verdade estava aberta,

mas só deixava passar
meia pessoa de cada vez.
Assim não era possível atingir toda a verdade,

porque a meia pessoa que entrava
só trazia o perfil de meia verdade.
E sua segunda metade
voltava igualmente com meio perfil.
E os meios perfis não coincidiam.
Arrebentaram a porta. Derrubaram a porta.

Chegaram ao lugar luminoso
onde a verdade esplendia seus fogos.
Era dividida em metades
diferentes uma da outra.
Chegou-se a discutir qual a metade mais bela.

Nenhuma das duas era totalmente bela.
E carecia optar. Cada um optou conforme
seu capricho, sua ilusão, sua miopia.

Carlos Drummond de Andrade

quarta-feira, 2 de abril de 2008

Foi-se o tempo
'Pobre coitado'
Entediado
Juntou seus pertences
Saiu a correr mundos
A mala cheia...
Exatamente naquele lugar
Largou tudo
E foi-se novamente...
Como veio ao mundo

(D-1996)