domingo, 14 de outubro de 2007

Parte quatro

VII
Súbito vimos ao mundo
e nos chamamos Ernesto
Súbito vimos ao mundo
e estamos
na América Latina
Mas a vida onde está?
Nos perguntamos
Nas tavernas?
Nas eternas tardes tardas?
Nas favelas
onde a história fede a merda?
No cinema?
Na fêmea caverna de sonhos
e de urina?
Ou na ingrata
faina do poema?
(a vida
que se esvai
no estuário do Prata)
Serei cantor
serei poeta?
Responde o cobre (da Anaconda Cooper):
Serás assaltante
e proxeneta
policial jagunço alcagüeta
Serei pederasta e homicida?
Serei viciado?
Responde o ferro (da Betlhem Steel):
Serás ministro de Estado
e suicida
Serei dentista?
Talvez quem sabe oftalmologista?
Otorrinolaringologista
Responde a bauxita (da Kaiser Aluminium):
serás médico aborteiro
que dá mais dinheiro
Serei uma merda
quero ser uma merda
Quero de fato viver.
Mas onde está essa imunda
vida - mesmo imunda?
No hospício?
Num santo
ofício?
No orifício
da bunda?
Devo mudar o mundo,
a República? A vida
terei de plantá-la
como estandarte
em praça pública?


VIII
A vida muda como a cor dos frutos
lentamente
e para sempre
A vida muda como a flor em fruto
velozmente
A vida muda como a água em folhas
o sol em luz elétrica
a rosa desembrulha do carbono
o pássaro, da boca
mas
quando for tempo
E é tempo todo tempo
mas
não basta um século para fazer a pétala
que um só minuto faz
ou não
mas
a vida muda
a vida muda o morto em multidão

( Rio, 24/07/69)



El sonido de la canción Los Hermanos de Atahualpa Yupanqui, pseudônimo usado pelo argentino Héctor Roberto Chavero, em homenagem a Atahualpa e Tupac Yupanqui, os últimos governantes incas.

Yo tengo tantos hermanos
que no los puedo contar
en el valle en la montaña
en la pampa y en el mar.
Cada cual con sus trabajos,
con sus sueños cada cual
Con la esperanza adelante,
con los recuerdos detrás.
Yo tengo tantos hermanos
que no los puedo contar.


O POEMA Dentro da Noite Veloz, um poema dedicado ao Che, faz parte do livro, que levou o mesmo título por ter sido forte e significativo, escrito por Ferreira Gullar. O livro reúne poemas de 1962 a 1975, neste mesmo ano foi publicado.

Carlos Puebla, um senhor cantante cubano.

Silvio Rodríguez, também cubano, e tenho um apreço por este.


Neste out/07, a Revista Caros Amigos soltou uma edição especial, O Che combatente e intelectual.

Hasta la vista y besitos.

2 comentários:

Jens disse...

Oi Vais.
Tem também um disco (LP) dos anos 80 em que Gullar declama este e outros poemas. É simplesmente soberbo.

Vais disse...

Olá Super simpático Jens,
Mas este poema é maravilhoso!
As antigas bolachas?
E não conheço esse que você falou,valeu pela informação.
Beijo