sexta-feira, 15 de março de 2013

foi assim

para  Assis Freitas

Magritte                                                                                          imagem: net



passou a não sentir mais nada, nem ódio nem amor.
passou a respirar distante como em constante partida.
mirava o sol nascer, mirava o sol se por, e nada mais lhe dizia algo.
_ você não vai banhar-se?
escutava e nada respondia.
"será que enlouqueceu?"
não ria nem chorava.
passou a comer por questões fisiológicas e a dormir pelas mesmas questões.
ia se lavar pelo contato com a água.
se deixava ao ar quando ventava.
catava pedras no terreno e as jogava ao tempo para enxergá-las cair aqui, ali, aos seus pés.
depois sentava na grande pedra com uma caixa de fósforos e riscava um a um, fitava-os queimar hipnotizada.
não lia mais, nem via nem ouvia ou escrevia, passou também a não falar.
saía a andar pelas ruas, um pé à frente do outro e sempre voltava.
quiseram que fosse consultar especialistas.
mas quando tocaram em seu braço, seus olhos se voltaram, moveram do toque aos olhos do tocante.
para o tocante, o choque e o espanto foram tamanhos que as mãos se soltaram ao deparar com aquele olhar onde se espelhava o vazio da imensidão orbitando.


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UM SOM!!!!

Supercordas- 3.000 folhas


2 comentários:

Assis Freitas disse...

quase vi nuvens saltitando pelas retinas, uma íris em circunstâncias



beijo

Vais disse...

Assis, adoro você :)
e através do seu olhar as nuvens saltitaram e nestas condições criaram asas reluzentes e alçaram arco voo cores adentro e afora
beijo grande pra ti e vai tudo pra você

3.000 folhas - Supercordas
Lá onde o sol se põe
As folhas caem
Eu sigo manso o vôo das monarcas azuis
Por onde não passa luz
Águas concorrem
Com o caminho sob o teto de plantas

Pelos rios de cá corre leite
E a tarde sempre chove mel
Mas meus olhos ainda são de 3000 folhas brancas de papel.

Estradas de açafrão
Aos montes sobem
E eu só flutuo ao som de uma fuga rasteira
E agora o que restou?
Sonhos nublados
E a gravura dos teus olhos de nuvem

Eu sonhando sobre o tapete
Das lilases pétalas de céu
E teu corpo rabiscando
Com onírico pincel