segunda-feira, 6 de agosto de 2012

das intimidades




Não sei o que mais em mim se agita.
Se meu espírito. Mas, qual a matéria?
Impalpável, feita de gás? Ou minha antimatéria?
Se minhas entranhas: tripas, estômago, coração, veias, cordas.
Se minha massa.
Compressão dos nervos velozmente correndo.
Ou
Se um todo sem explicação.

Não fosse eu seria outra.
Talvez uma fulana assim e assado.
Uma doutora dos dentes, nem tão realizada, sempre falta algo sendo eu ou a fulana.
Talvez uma cicrana super hiper bem sucedida artista plástica dada a decorações, poderia ser, ou pintora, escultora, mas não era para tanto, o acordo foi outro.
Talvez uma beltrana engenheira, arquiteta, contabilista, licenciada em física, psicóloga, tecnóloga.
Talvez uma qualquer para sempre alienada, alheia, indiferente ao que me acerca.
Não vim pelas posses nem da matéria nem dos aprendizados, afora uma máquina de costura que não cabe no embornal e que, se por bem, fica na beira do caminho a quem puder servir.
Mas nasci eu e me deram um nome da flor que brota no frio e tão longe e tão distante, e me tornei amante, militante e mãe.
Aqui estou eu menina mulher dona de casa.


Alguém pensou que seria assim?
Muitos predestinaram o fim.
Mas qual...
E outr@s tant@s vieram e desejaram profundamente os fins.
Muitos sonhos foram assassinados.
Mas não puderam represar o sangue que se esvaiu e que encheu as valas e que regou os veios.
Não puderam conter a essência fluída que se misturou ao vento.
Não puderam esmagar as sementes nos bicos dos pássaros.
Seres exterminam vidas, no entanto a idéia é transmitida geração após geração, com isso eles não podem.
Passa o tempo lento, dia e noite, sol e chuva.
As estações mudam, alteradas estações.
E a vontade se eleva, marcha, segue...
Entre as escuridões, as sombras e as luzes.



5 comentários:

Assis Freitas disse...

Álvaro de Campos
Lisbon Revisited
(l923)

NÃO: Não quero nada.
Já disse que não quero nada.
Não me venham com conclusões!
A única conclusão é morrer.

Não me tragam estéticas!
Não me falem em moral!

Tirem-me daqui a metafísica!
Não me apregoem sistemas completos, não me enfileirem conquistas
Das ciências (das ciências, Deus meu, das ciências!) —
Das ciências, das artes, da civilização moderna!

Que mal fiz eu aos deuses todos?

Se têm a verdade, guardem-na!

Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica.
Fora disso sou doido, com todo o direito a sê-lo.
Com todo o direito a sê-lo, ouviram?

Não me macem, por amor de Deus!

Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável?
Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa?
Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade.
Assim, como sou, tenham paciência!
Vão para o diabo sem mim,
Ou deixem-me ir sozinho para o diabo!
Para que havemos de ir juntos?

Não me peguem no braço!
Não gosto que me peguem no braço. Quero ser sozinho.
Já disse que sou sozinho!
Ah, que maçada quererem que eu seja da companhia!

Ó céu azul — o mesmo da minha infância —
Eterna verdade vazia e perfeita!
Ó macio Tejo ancestral e mudo,
Pequena verdade onde o céu se reflete!
Ó mágoa revisitada, Lisboa de outrora de hoje!
Nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta.

Deixem-me em paz! Não tardo, que eu nunca tardo...
E enquanto tarda o Abismo e o Silêncio quero estar sozinho!



beijo

sandra camurça disse...

e eu aqui, te lendo, desejando ser você quando crescer...
beijo

Vais disse...

que coisa, heim, Assis!?
Evoé! Saravá!
você, Fernando Pessoa e seus eus

beijo


**************

êta, Sandrinha, você é um barato querida hermana, vale também o contrário
as bochechas tão queimando
grácias, minha linda ♥♥♥♥
beijo doce

Jorge Pimenta disse...

eu e os outros: os que realmente sidos e os potencialmente acontecidos. afinal, tudo se agita...

beijinho, vais!

Vais disse...

um eu que é tanto nós, né Jorge
e vamos nos moldando, nos processos de absorção e raspagem

beijos, querido moço