quarta-feira, 8 de agosto de 2012

acontecimentos

levo a mão ao peito
por quantas noites
viro concha
um ouvido pegado ao lombo
pálpebras baixadas
o mar
o som das ondas batendo
o cheiro salgado da maresia
por quantas luas
de onde virá? se virá

de cócoras
os segundos passam
entre os vasinhos de gerânios
os vasinhos das mudas da roseira
de acerola e da amoreira que pegaram
olhando
seguindo as fileiras
das formigas ao ninho
incito o caos nas colônias
dou munição às operárias
matam a rainha
e as sobreviventes procuram outra
pois nada sabem de liberdade

***************

No http://azultemporario.blogspot.com.br de Marcantonio

QUARTA-FEIRA, 17 DE AGOSTO DE 2011

PROVAS DO ARTISTA (50)


REMOÇÃO

E as palavras surgem aos poucos
De onde não eram percebidas,
Providentes formigas
Ao redor dos despojos
De um animal maior:

É a sensação morta
Que o poema transporta,
Alheia a si, ela migra:
Que estranha ilusão de sobrevida!

 
Escher, Fita de Moebius II (formigas)
Xilogravura em três cores, 1963.

Olá, Marcantonio


A escrita, a imagem, um impacto, uma fita de DNA cheia de formigas. Uma área cimentada que chamamos de terreiro com vasos de gerânios e um ninho de formigas das cortadeiras feito numa moita de guiné nascida num buraco do cimento. Elas começaram a comer os gerânios e suas flores, uma noite vimos a fila de muitas que iam e vinham da moita aos vasos, taquei álcool e botei fogo, nada, elas não paravam e não sabia mais o que fazer. Os gerânios já no talo, depois deles o que seria. Fui a uma loja e o moço explicou com uma expressão trágica me dando um saquinho com uns toquinhos, você coloca e elas carregam até a rainha e matam a rainha, depois que a rainha morre elas vão embora procurar outro ninho, outra rainha. Instrumentalizei as operárias a envenenarem sua rainha. Ficávamos vendo as formigas carregando os toquinhos ao invés das folhas e flores dos gerânios para dentro do ninho.

Outro impacto que me chega, o de uma passagem no livro Uma Aprendizagem ou O livro dos Prazeres da Clarice Lispector:

“_ Não sei mais se no restaurante da Floresta da Tijuca tem galinha ao molho pardo, bem pardo por causa do sangue espesso que eles lá sabem preparar. Quando penso no gosto voraz com que comemos o sangue alheio, dou-me conta de nossa truculência, disse Ulisses.
_ Eu também gosto, disse Lóri a meia voz. Logo eu que seria incapaz de matar uma galinha, tanto gosto delas vivas, mexendo o pescoço feio e procurando minhocas. Não era melhor, quando fomos lá, comer outra coisa? perguntou meio a medo.
_ Claro que devemos comê-la, é preciso não esquecer e respeitar a violência que temos. As pequenas violências nos salvam das grandes. Quem sabe, se não comêssemos os bichos, comeríamos gente com seu sangue. Nossa vida é truculenta, Loreley: nasce-se com sangue e com sangue corta-se para sempre a possibilidade de união perfeita: o cordão umbilical. E muitos são os que morrem com sangue derramado por dentro ou por fora. É preciso acreditar no sangue como parte importante da vida. A truculência é amor também.”

E não consigo achar outra expressão, demasiadamente doido. 


Grande abraço pra você.




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O Som!!!!


Xangai- Curvas do Rio - Elomar Figueira de Melo

6 comentários:

Assis Freitas disse...

:)


beijo

Vais disse...

Ei, Assis

{:o)

beijo

Jorge Pimenta disse...

o búzio e todos os mistérios que guarda do mar (ou como é possível ser rocha, fenda, água, vaga e tempestade em 2 cm de quitina frágil e cansada?) os meus ouvidos ensurdecem perante a potência do som que os guarda.

beijos para ti, vais, e um abraço para o marcantónio!

Vais disse...

é impressionante o mistério natureza

beijos, Jorge

Cris de Souza disse...

Formigar não se conjuga docemente...

Beijos!

Vais disse...

Ei, Cris
talvez nem levemente

beijos pra ti