terça-feira, 31 de julho de 2012

dando geral

Tinha guardado em um quartinho de despejo no apartamento de minha mãe umas poucas caixas contendo livros e muitos, muitos papéis dos anos em que participei de algumas atividades aqui em BH. Já não era sem tempo de dar um jeito. Junto com um dos irmãos trouxemos as caixas. E caixa por caixa fui separando o que ia ficar e o que ia para a reciclagem.
Foi então que encontrei um caderninho de 2001 que usava para fazer anotações dos encontros e reuniões, passando as páginas achei este escrito que vem, com apenas uma mudança de lugar duma frase.

Não ando de toquinho por aí.
Entrelaçando meus vinte dedos tornei-me um João-Bobo, para cá e para lá embalava meus órgãos.
Poderia andar de quatro, se assim fosse.
Mas, um dia, há muito tempo atrás, ergui o corpo.
Não sei se foi num momento de fome ou quando num amanhecer abri os braços ao sol.
Desde então, o toque ficou mais claro.
As unhas roçaram a pele e tiraram células mortas.
Abri as mãos e vi buracos na face.
Começou assim,
Meus olhos sentiram os contornos, a textura macia e áspera...
Fui direto ao barro e lacrimejando fiz do toque, a imagem.
(2001)




*** Ficar de toquinho é uma expressão que na fala vira 'ficar de tuquim' e é o mesmo que plantar bananeira.***

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Ele e ela, eu e você


Pessoas distintas, porém em tempos, as mesmas eu e ela, você e ele.
Passados. Um presente. Futuros.
Indicativos.
Pretéritos: imperfeito, mais-que-perfeito.
Futuro do pretérito: doideira pura.
Os tempos do subjuntivo: presente, pretérito(passado) imperfeito, futuro. 
Os infinitivos. Gerúndios. Particípios.

Se você cantasse para eu dormir, ela ouviria, mas isso só quando ele vier e para que ela acorde.
Você sentaria no assoalho, ligaria o aparelho, então eu viria, ela viria, ele viria, você já estava, e cada qual ao seu momento: ela fecharia os olhos e taparia os ouvidos, ele plantaria uma bananeira no meio da sala, eu abriria as janelas.
Mas se você soubesse tudo que ela sentia e que ele guardava, talvez eu sentisse mais, no entanto não pensava em nada. Decerto uma inverdade quando resumia a nada o que vinha, pois não era o que queria, mesmo assim deixava que saísse,  e ela ria disso tudo, enquanto ele se entristecia e você procurava o vazio na memória.
Eu tinha aquela marca na face onde ele passava os dedos, dedos que ela lambia quando você se lambuzava do doce preferido.
Ele recordava daquela rosa que comprara na florista da estrada, e você havia dito que ela se machucaria se eu continuasse.
Ele ia enquanto ela chamava.
Você retornaria mais velho, mais sábio, mais bonito.
Você retornaria mais velha, mais sábia, mais bonita.
Sem razão que apresentasse, passara a cruzar as ruas, quando o que fazia era pular os meios-fios das calçadas, e assim continuaria passo a passo, pulo a pulo.
Você subiria? E se encontrasse... ela na porta e ele no corredor? O que você faria? O que ela faria? O que ele faria? E eu, o que faria?
Eu empurrava a mesa até o armário, pegaria aquela caixa que você tanto queria.
Guardava lembranças, memórias, o passado o presente para o futuro.
Quem puxaria a tampa?
Eu chorava.
Ele sorria.
Você amava.
Ela partia. 

                     
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O Som!!!!!!

Led Zeppelin - Tea for one

sábado, 7 de julho de 2012

Salve, Salve, Assis!


Moço poeta dos mileumpoemas,  e ele conseguiu nestes mil e um amanheceres nos oferecer sua graça poética.

Aqui vão o primeiro:


terça-feira, 13 de outubro de 2009

1 - A imagem

no quadro
quadro a quadro
os teus seios
sempre pintavam
em cores reais

enquanto
rabiscavas
o céu de ficção



O, não totalmente do meio, de lá beirando a metade:

domingo, 20 de fevereiro de 2011

500 - Canção de infortúnio para olheiras e guelras

outrora foi o pranto que vazou a garganta
penetrou nas chagas da pele, fez moradia
eternizou-se em montanhas de silencios

essas estranhas correntezas corróem-me
são silvos no meio de tormenta e estrada
cantam comigo o desvario de tantas vozes

outrora foi uma palavra de gesto destituído
compilada na enciclopédia das galáxias
a irromper–se em predicados de gula febril

senhoria de tantos mistérios a quem invoco
em triste cantilena sobre preces e pretéritos
nesta tarde em que se ruflam todos os poentes

Poema para a postagem 500

CANTILENA

às vezes eu penso, ou então não penso.
às vezes cresço por dentro e então digo:
de quem é esta terra mais pequena, aquele
espaço no cabelo mais pequeno tão quando
a tua mão tão na minha? apertá-la é um lugar
muito perto. e digo ainda: quem é a locomotiva
de silêncio? lá fora é dia e a noite é um moinho.
sim, a planta entende as tuas pernas porque canta
nelas. a mão bate na cara, a canção hoje canta!
se alguém me perguntar eu digo que a beleza
é uma garganta toda azul a escorregar no céu.
e falo numa máquina feia de segredar ao ouvido.
quero comer o mar
quero um silêncio assim durante quinhentos poemas

Rui Costa

E o 1001:

quinta-feira, 5 de julho de 2012

1001 - Balada de tardio encanto


Vivo a permuta dos sonhos:
Sou de junco, barro, poeira.
Entrelaço coisas e destinos
Insinuo rota, sinal, aforismo

Improviso sismos e abismos
Sou inoportuno ao despertar
Espirro reticências e pausas
Camuflo casulos e aplausos

Tenho gosto para relevância
De carpir o leito das palavras
Dar sobrevida a um fino gesto
De montar susto no improviso

Aplaco distancias com o olhar
Alterno preces, coitos, abraços
Revelo as dores na minha pele
Irmano migalhas aos pedaços

Transito entre o que me chega
Ao que desafia sina e sortilégio
Mas nada posso contra o verbo
Vago vazio sem nenhum rastro



PARABÉNS, ASSIS !

Então, teremos com ele na(o) arvoredapoesia a colher flores, frutos e sombras em versos, e vez em quando um pouso nos galhos.