sábado, 26 de novembro de 2011

E... Feito de Luz - Ana Cruz




Solidão

Júlia quer ter filho
e não consegue.
Ela nunca chora,
nem às escondidas.

Júlia quer ter filho,
mas está sempre com raiva
e nunca fala.
Sua madrasta anda dizendo
que Júlia quer ter filho
somente pela vaidade.

O que Júlia tem e não coloca pra fora,
está se transformando em pedra.

Há dias
em que fica demasiadamente fria
noutros,
extremamente quente.

Então a semente não resiste
e morre!

Vamos bater palmas,
vamos bater tambor, 
vamos fazer os demônios de Júlia
se manifestarem,
e depois colocá-los pra correr.

Vamos ensinar Júlia rir
de seus demônios.
Vamos ajudá-la a dar vassouradas
em seus demônios.

Vamos ajudar Júlia
a parir.

**************

Dona doida

Sentada à beira mar,
perdendo o sentido.
O real cai,
pensamento se estilhaça.

Alguém passa e pensa:
ela não conseguirá
retornar a seu estado
normal.

E qual estado normal?

A senhora retoma-se.
De cócoras
vai montando estilhaços em série.

Faz uma reza que aos olhos
da modernidade soa
como um dialeto qualquer.

Olha pro céu
de cara alegre.
E segue seu caminho
cantando:
a verdade me libertará.


************** em homenagem ao 08 de março de 2008 fiz uma postagem com outra poesia dela. Aqui. *************

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