domingo, 15 de agosto de 2010

Este texto, da Virgínia Fontes, que coloquei nas duas postagens anteriores e nesta, é um texto comprido que tenho já um tempo, e mostro mais estes parágrafos.


Liberalismo, marxismo e hegemonia – alguns pontos para pensar – Virgínia Fontes

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Virgínia Fontes
.............O que tem a ver este pensamento liberal com a comunicação? Muito. O pensamento liberal forneceu a base para uma das mais poderosas “naturalizações” do mundo, que continua vigente até hoje. Ele foi um forte impulsionador para que o pensamento se desvencilhasse dos laços tradicionais, da obediência cega a um superior nobiliárquico e aos princípios religiosos. O mercado passou a ser apresentado como “neutro”, rápido, competitivo e eficaz. Passou a ser concebido como inescapável, incontornável, assim como o tipo de progresso a ele associado. Nada poderia resistir: nem as tradições, nem as religiões, nem as culturas, nem as distâncias. A natureza do homem passou a ser considerada como mercantil, o mercado tornou-se uma segunda pele. Os homens, liberados dos deuses, se tornaram frágeis e isolados. Sonhavam, cada vez mais alto e forte, mas eram cada vez mais fracos e isolados... Os grupos dominantes produziam as idéias dominantes. ..........E, se por acaso, os dominados tentassem resistir, o Estado-mercado apresentaria sua outra face, coercitiva e militar. Caso as idéias não fossem suficientes, a força imporia a “liberdade” do mercado. (...) .............Com isso, Marx pôde evidenciar exatamente a contradição do liberalismo. Não apenas dizer que é falso, o que seria meia verdade, mas achar a meia verdade que nele está embutida, seus limites internos. A sociedade capitalista de fato liberou os homens. Mas esse processo foi também sua expropriação. Liberou/expropriou a todos de sua capacidade de produzirem sozinhos sua subsistência. Libertou, portanto, os homens dos laços tradicionais que os ligavam aos senhores da terra, ao retirar a terra, dos trabalhadores. Expropriou os trabalhadores dos meios que dispunham para assegurar sua subsistência e, assim, tornou-os todos livres, para vender sua força de trabalho. A expropriação é originária e constitutiva do capitalismo e se repete incansavelmente há quase 5 séculos. Hoje, sob nossos olhos, se mostra mais um de seus desdobramentos, pela “expropriação de direitos” sociais conquistados, direitos que reduziam a dependência dos trabalhadores frente a seus empregadores. (...) ...........Assim, para Marx, mudar as idéias com as quais os homens pensam seu mundo exige pensar o mundo no qual nascem e se consolidam as idéias. Essa íntima, estreita e vigorosa relação entre a análise da realidade, rigor conceitual e identificação/formulação das idéias possíveis e necessárias passou a ser a condição para pensar qualquer ciência social, assim como para pensar qualquer projeto social. Essa operação tem um resultado extraordinário: permitia desnaturalizar a vida social, que deixava de ser obrigatória, imutável e cega, e passava a poder apoderar-se da realidade para transformá-la.


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3 comentários:

Jorge Pimenta disse...

vais, o título do teu blogue encaixa que nem uma luva neste post: liberalismo e marxismo, duas faces de uma mesma moeda: a acção desabrida e extremada ora da iniciativa privada, ora do estado. mas, qual o lugar reservado aos sujeitos? peças de máquina, apenas...
um beijinho e um agradecimento especial pelos carinhos que tens deixado lá no viagens de luz e sombra!

Roy Frenkiel disse...

Gostei muito dese blog e me pergunto porque nao o havia visitado antes, desde os trechos do texto de Virginia Fontes ate a poesia que encontro mais para baixo. Esse texto, particularmente, me interessa muito do ponto de vista de meus estudos em relacoes internacionais. O fator "hegemonia" e bastante poderoso no reino das ideias construtivistas que aqui discuto na academia.

Mas gostei da sensibilidade, dos desenhos e das ideias.

Voltarei mais vezes, portanto aviso que a linkarei em casa.

Bjx

RF

Vais disse...

Olá Jorge,
ir ao sabor do toque até às últimas consequências dá trabalho, heheh
os sujeitos, nós, eles, elas, vocês, peças de máquinas nas mãos de quem, né mesmo, nossos iguais/semelhantes? e tão descartáveis quanto quaisquer outras peças ou como qualquer outro objeto ou ser. Deprime.
O lance é aonde buscar, e fazer acontecer o contrário.
beijo prati e tamos por lá, aqui, aí
grata e inté


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Uai, Roy,
Seja bem vindo, moço
Este texto da Virgínia é bom, ganhei quando num dos encontros sobre comunicação, tempos atrás, e fuçando uns papéis outro dia, achei, bom achado, então, ele é impresso, e até tentei, um pouco, ver se achava na net, mas não consegui.
E volte sempre que rolar, tamos por aqui mes.
valeu a visita!
beijo