quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

90 anos depois


Uma vermelha rosa para a Rosa Vermelha

E desta forma o ano de 2009 começa neste canto, com a figura de uma mulher, seus pensamentos, palavras, atos e indignações, uma representação de amor, resistência e luta.

ROSA LUXEMBURGO
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Vida e obra
Isabel Maria Loureiro
expressão
POPULAR
edição: nov/99

Abaixo, vai uma carta que consta neste livro. Na verdade, é uma parte grande de uma longa carta que não me dispus a digitar, fui acha-la, com algumas diferenças nas traduções, e todinha, no Vermelho.


Rosa Luxemburg: Uma carta da prisão a Sonia Liebknecht

Breslau, antes de 24 de dezembro de 1917.

(...) Ontem fiquei muito tempo acordada – agora não consigo dormir antes da uma, mas preciso ir para cama às 10 porque a luz é apagada –, e então no escuro sonho com diversas coisas. Ontem então pensava: como é estranho eu viver permanentemente numa alegre embriaguês, sem nenhuma razão particular. Assim, por exemplo, estou aqui deitada nesta cela escura, num colchão duro como pedra, enquanto à minha volta, no edifício, reina a habitual paz de cemitério; parece que está no túmulo. Através da janela desenha-se no teto o reflexo do bico de gás ardendo a noite inteira em frente da prisão. De tempo em tempos ouve-se o ruído surdo de um trem que passa ao longe, ou então, bem perto, debaixo das minhas janelas, o pigarro da sentinela que, com suas botas pesadas, dá alguns passos lentos para desentorpecer as pernas. A areia estala tão desesperadamente sob esses passos que todo vazio e a falta de perspectivas da existência ressoam na noite úmida e sombria. E aqui estou deitada, quieta, sozinha, enrolada nos véus negros das trevas, do tédio, da falta de liberdade, do inverno – e, apesar disso, meu coração bate com uma alegria interior desconhecida, incompreensível, como se debaixo de um sol radiante estivesse atravessando um prado em flor. No escuro, sorrio à vida, como seu eu conhecesse algum segredo mágico que pune todo mal e as tristes mentiras, transformando-as em luz intensa e felicidade. E, ao mesmo tempo, procuro uma razão para essa alegria, não encontro nada, e tenho que sorrir novamente – de mim mesma. Creio que o segredo não é outro senão a própria vida; a profunda escuridão noturna é bela e suave como veludo, basta saber olhar. No estalar da areia úmida sob os passos lentos e pesados da sentinela canta também uma bela, uma pequena canção da vida – basta apenas saber ouvir. Nesses momentos penso em você. Gostaria tanto de passar-lhe essa chave mágica para que você percebesse sempre, em todas as situações, o que há de belo e alegre na vida, para que também você viva na embriaguês, como que caminhando por um prado cheio de cores. Longe de mim a idéia de contentá-la com ascetismo, com alegrias imaginárias. Concedo-lhe todas as verdadeiras alegrias dos sentidos. Só gostaria de dar-lhe também a minha inesgotável serenidade interior, para não me preocupar mais com você, para que andasse na vida com um manto de estrelas protegendo-a de tudo que é mesquinho, banal e angustiante.
(...) Ah! Sonitchka, passei aqui por uma dor violenta. No pátio onde passeio chegam muitas vezes carroças do exército, abarrotadas de sacos ou túnicas velhas e camisas de soldados, muitas vezes manchadas de sangue...; são descarregadas, distribuídas pelas celas, consertadas, novamente postas nas carroças para serem entregues ao exército. Outro dia, chegou uma dessas carroças, puxada não por cavalos, mas por búfalos. Era a primeira vez que via esses animais de perto. São mais fortes e maiores que os nossos bois, têm a cabeça chata, chifres curvos e baixos, e uma cabeça totalmente negra, de grandes olhos meigos, que lembra a dos nossos carneiros. Vêm da Romênia, são um troféu de guerra... os soldados que conduziam a carroça diziam ser muito difícil capturar esses animais selvagens, e ainda mais difícil utilizá-los para carregar fardos, pois estavam acostumados à liberdade. Foram terrivelmente maltratados até compreenderem que perderam a guerra e que também para eles vale a expressão “vae victis” [ai dos vencidos]... Só em Breslau deve haver uma centena desses animais; acostumados que estavam às ricas pastagens da Romênia recebem ali uma ração parca, miserável. Trabalham sem descanso puxando todo tipo de carga e com isso não demoram a morrer. Há alguns dias então uma dessas carroças cheia de sacos entrou no pátio. A carga era tão alta que os búfalos não conseguiam transpor a soleira do portão. O soldado que os acompanhava, um tipo brutal, pôs-se a bater-lhes de tal maneira com o grosso cabo do chicote que a vigia da prisão, indignada, perguntou-lhe se não tinha pena dos animais. “Ninguém tem pena de nós, homens”, respondeu com um sorriso mau e pôs-se a bater ainda com mais força... Os animais deram finalmente um puxão e conseguiram transpor o obstáculo, mas um deles sangrava... Sonitchka, a pele do búfalo é proverbialmente espessa e resistente, e ela foi dilacerada. Durante o descarregamento, os animais permaneciam imóveis, esgotados, e um deles, o que sangrava, olhava em frente e tinha, na cara escura e nos olhos negros e meigos, uma expressão de uma criança em prantos. Era exatamente a expressão de uma criança que foi severamente punida e que não sabe por qual motivo, por que, não sabe como escapar ao sofrimento e a essa força brutal... eu estava diante dele, o animal me olhava, as lágrimas saltaram-me dos olhos – eram as suas lágrimas. Ninguém pode sofrer mais por um irmão querido do que eu sofri na minha impotência com essa dor silenciosa. Como estavam longe, perdidas, inacessíveis, as pastagens da Romênia, essas pastagens verdes suculentas e livres! Como tudo lá era diferente, o brilho do Sol, o sopro do vento, como eram diferentes os belos cantos dos pássaros ou o melodioso chamado do pastor. E aqui – esta cidade estrangeira, horrível, o estábulo sombrio, o feno mofado, repugnante, misturado com a palha apodrecida, os homens desconhecidos, assustadores, e – as pancadas, o sangue que corre da ferida aberta... Oh! meu pobre búfalo, meu pobre irmão querido, aqui estamos os dois tão impotentes e mudos, mas somos só um na dor, na impotência, na saudade. Entretanto os prisioneiros agitavam-se em volta do carro, descarregavam os pesados sacos e arrastavam-nos para dentro; já o soldado enfiara as mãos nos bolsos das calças e percorrendo o pátio com grandes passos, ria e assobiava baixinho uma canção da moda. Diante de mim a guerra desfilava em todo o seu esplendor.

Escreva logo.

Abraços, Sonitchka,Sua R

Sonitchka, querida, fique calma e alegre apesar de tudo. Assim é a vida. É preciso tomá-la corajosamente, sem medo, sorrindo – apesar de tudo. Feliz Natal!


Rosa de Luxemburg ou o preço da liberdade - Jörn Schütrumpf (org.)Editora Expressão Popular – 1ª edição – São Paulo – 2006 Tradução: Isabel Maria Loureiro
=> de cima pra baixo: imagens 1, 2: net / imagem 3: escaneada de um encarte publicado por Rosa-Luxemburg-Stiftung

Saudações vermelhas em todas as línguas e gestos!

10 comentários:

Jens disse...

Oi Feiteiceira Vais.
Que bela carta, uma declaração de amor à vida apesar dos horrores da guerra. Um contraponto oportuno nestes tempos de assassinatos de crianças em Gaza. Obrigado pelo post, foi bom ler. A esperança cambaleia, mas se mantém de pé.
Um beijo igualmente vermelho.

Moacy Cirne disse...

Concordo com Jens: uma belíssima carta. Aliás, a Rosa é um dos grandes nomes do século XX, e uma das três ou quatro maiores mulheres dos últimos 100 ou 120 anos. Em tempo: você foi incluída na Feira de Blogues do Balaio. Assim, será mais rápido acompanhar as suas atualizações. Um beijo.

adelaide amorim disse...

Oi, Vais! De volta das férias direto para as casas amigas.
Linda a carta de Rosa. Restam bem poucas iguais a ela, nestes tempos globalizados de pessoas mornas.
Beijo e até breve.

Canto da Boca disse...

Olá, Vais, como vais?
;)

Vim com uma rosa vermelha, viçosa pra te entregar, um sincero pedido de desculpas, e deparo-me com essa Bela-Rosa-Mulher-Vermelha-Consciencia-Ética, a da carta e da História e Política, e a que a publicou e me emocionou: você!
Quero mesmo justificar a quem quero a minha ausência da esfera dos blogues, ando sem tempo algum, o que não é mau e nem mal, pois estou ocupada com algo que também adoro fazer, que é escrever a minha tese. Isso requer um pouco mais de concentração, dedicação e leituras. Daí a demora em agradecer as gentilezas e carinhos todos que recebo. Mas creia, eu voltarei mais vezes aqui pra te ver.
Vou te linkar no Canto, viu?
Um beijo carinhoso.
;)

Vais disse...

Olá Simpático Jens,
esperança é um sentimento muito feliz que precisamos a cada manhã, a cada noite pra quebrar tudo.
beijão
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Saudações Moacy,
é isso aí, uma belíssima carta de uma mulher belíssima
beijo grande pelo carinho da inclusão
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Olá querida Adelaide,
seja bem vinda sempre
olha, vou provocar um pouquinho, esta expressão, pessoas mornas, já tinha visto, e fiquei pensando, quem são as pessoas mornas, me veio a figura da Macabéa (d'A Hora da Estrela) ela seria um exemplo?sabe Adelaide, fico vendo é uma alienação horrorosa nestes tempos modernos.
E linda mesmo a carta, e a Rosa, uma mulher fantástica
volte sempre
beijos
*************

Olá Boca,
vous bem e tu também?
seja bem vinda a esta caxanga, ahaha
canto aqui canto lá
boca formas carnudas
vermelhas, adoro batom vermelho e pinto minhas unhas do pé de vermelho, ehehe
Não tem que desculpar e tal e tal
e tudo de bom na sua tese
volte sempre que desejar
beijim pelo carinho
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Vais disse...

'Estou aqui de passagem'.

Olá gente,
vocês que dão um chego aqui na cozinha desta caxanga, pros intimos cozdacax, e que vem prum gulim, uns nhams nhams, umas conversas e escutar/dançar um som, prefiro a descontração da cozinha prum papo sério e pra descontrair um som Tea for One - Led Zeppelin, e a guitarra comendo solta.
Por estes dias estou tomando um chá, o de sumiço, você fiquem a vontade em companhia da Rosa.
Pra quem não é de carnaval, aproveitem o feriado, e pra quem é da folia do feriado, aproveitem o carnaval,
tanram tanram taram tanram tanranranranranranram
viva as marchinhas!
beijocas

os comentários da última postagem foram respondidos
inté

Jens disse...

Oi Feiticeira Vais.
Passando pra deixar um beijo.

Loba disse...

Vais!
é isso, minha amiga. Passe, ainda que de vez em qdo. Mas não deixe de vir, nao perca o fio...rs
Belissima esta carta! E sempre atual,né? Porque guerra e esperança parecem contrárias, mas andam sempre lado a lado neste mundo que foge por entre nossos dedos!
Beijocas, querida

Jens disse...

Oi Feiticeira Vais.
Só pra desejar um belo carnaval.
beijo.

Soninha disse...

Olá, Vais!
Nos falamos no AO 2008, lembra?
Realmente o amor é capaz de superar as maiores dores e esquecer os horrores.
O amor é bálsamo que cura todas as feridas.
Deixei um mimo para você, lá no Roda de Prosa, ok?!
Espero que goste. Volte logo!
Muita paz! Beijossssssssssssss