terça-feira, 11 de novembro de 2008

Caros Amigos – Especial nov/07

Pós-humano
O desconcertante mundo novo
Um ano após a publicação deste especial.
Transcrevo, abaixo, alguns trechos das respostas, da entrevista, coluna Tempo e Filosofia, feita por
Thiago Domenici a Olgária Matos.

É Preciso Reconquistar o Tempo

Olgária Matos, filósofa (...). Nesta entrevista(...) ela fala do ‘conceito de tempo e suas mutações no mundo contemporâneo’. (...). Uma visão instigante sobre os dias de hoje.

No mundo contemporâneo, a impressão que dá é que existe um ‘não tempo’, uma experiência do tempo que não passa, porque ele não se faz mais com experiências. Na verdade experiência supõe uma relação de conhecimento com valores e acontecimentos do passado que são transmitidos das formas mais diversas.

Além do que a modernidade, a partir dos séculos 17 e 18, começa a elogiar a paixão – a paixão é o excesso, e a nossa cultura valoriza o excesso.

Com o advento da luz elétrica, no século 19, o dia passou a ter 24 horas, o trabalho noturno entrou com uma voracidade de consumir todas as forças do homem, até o fim.

... mas o que era o tempo livre? Era um tempo totalmente autônomo com relação às necessidades materiais da sobrevivência, um tempo em que você se dedicava à contemplação, por mais indefinida que pra nós seja esta palavra contemplação.

Hoje não temos mais essa idéia de tempo livre, já é preenchido de coisas, então você tem um tempo inteiramente espacializado, não é mais qualitativo, ele não diz respeito a propriedades representativas de um acontecimento, de uma pessoa ou de um desejo. Essa idéia de que você não tem tempo é a forma mais perversa da alienação. Marx já dizia isso, a forma mais perversa não é a alienação do trabalhador com relação ao produto do seu trabalho e ao sentido do trabalho, é a alienação do tempo, você não ser senhor do seu tempo, você é determinado pelo tempo das coisas e não escolhe mais a sua vida.

Ora, o capitalismo produz a carência, ele não quer preencher uma necessidade, quer criar necessidades ao infinito.

E como a gente fala de futuro? Fala em mercados futuros, o futuro virou mais um valor de troca. Então quando se fala: ‘os jovens não têm expectativa de futuro’ – não têm um monte de coisa porque não têm expectativa de futuro e não sabem o que fazer com o tempo. Porque esse capitalismo produz uma cultura e uma educação cuja atividade cerebral é próxima a zero.

A ciência não pensa. Ela faz. O mundo contemporâneo não pode ter filosofia, porque a filosofia pensa o pensamento. A ciência deveria pensar a ciência.

Mas esse capitalismo é inimigo do pensamento autônomo, é inimigo da liberdade, é inimigo da vida feliz e da vida justa. E não é um capitalista, é o capitalismo!

Você não tem todo o tempo da educação, que é o tempo de aprender a lidar com o tédio. Agora, essa escola é o tédio, ela não ensina a lidar com o tédio. Porque o tempo não existe, você tem que passar rápido para outra coisa.

5 comentários:

Moacy Cirne disse...

Reler é preciso. Pelo menos, em certos casos. Como aqui, nos exemplos selecionados. Um beijo.

Jens disse...

Oi Feiticeira Vais.
Puta texto. Inteligente, certeiro e, importante, livre de jargões, gostoso de ler.
"A forma mais perversa não é a alienação do trabalhador com relação ao produto do seu trabalho e ao sentido do trabalho, é a alienação do tempo, você não ser senhor do seu tempo, você é determinado pelo tempo das coisas e não escolhe mais a sua vida."
O que dizer depois disso? O velho Marx permanece atual (e permanecerá enquanto o capitalismo estiver aí). Tuas leituras revelam quem você é: uma garota inteligente e bonita. Uma guria da fuzarca.
Um beijo.

Marcelo F. Carvalho disse...

Vais, tiro certeiro! Gol de placa!
Reflexão necessária e construtiva, mesmo na desconstrução do tempo.
_______________________
Abraço forte!

Loba disse...

Menina, estive lendo algunas velhas edições de Caros Amigos e coincidentemente reli este texto. Aliás, pela enésima vez. E acho que este é um destes textos que professor tem que reler sempre. Se me limito a professor, é pq é minha classe, claro! rs...
Bom saber desta nossa sintonia!
Beijocas

sandra camurça disse...

Muito bom, Vais, Muito bom!
Valeu, amiga!
Beijos.