sexta-feira, 1 de agosto de 2008

pirata zine-ano 1-n. 1-out/01

DIARIO DE BORDO

FALANDO E ANDANDO


Conforme um postulado da física, “em algum ponto do infinito, duas paralelas se encontram”.
Com esses conflitos internacionais recentes, a mídia tem-se mostrado disposta a derrubar esse postulado, pois da forma como os fatos têm sido reportados, torna-se impossível, mesmo no mais remoto ponto do infinito, um encontro da verdade com a notícia.
Com chamadas e manchetes hiperbólicas (“o maior” isso, “o pior” aquilo outro, etc) seguidas por imagens sombrias ou comoventes, são destacados apenas os efeitos dessa guerra (o pânico e o desespero dos inocentes de ambos os lados, “erros” de alvos, morte de civis etc), mas de modo algum são destacadas as causas disso tudo, as quais são apenas sugeridas, e o que é pior, se não erradas, certamente incompletas. Omite-se, por exemplo, a estranha sociedade que, até tempos atrás, os EUA mantinham com Bin Laden.
Somando-se essa tendenciosa manipulação à irresponsável especulação de fatos, como a possibilidade dessa guerra trazer conseqüências terríveis até para quem não está diretamente envolvido, começando pela caixa postal e terminando sabe-se lá onde, a mídia incutiu em um bom número de pessoas a ilusão de que uma guerra pode até não ser justa, mas pode ser “justificável”, e salve-se quem puder.
A mídia brasileira, paralelamente a esse globalizado (toc, toc, toc) “pragmatismo da paz”, em que vale tudo para se ter paz, inclusive mandar o diálogo e o adversário para o beleléu, também tem criado uma outra falsa ilusão, já absorvida por muitos, de que o Brasil, “apesar de tudo”, vive em paz. Que paz, cara pálida? Só se for em termos militares, pois vivemos em uma economia de guerra, com direito a racionamento de energia, desemprego, fome, violência social, falência do sistema de saúde, com a cultura monopolizada pelos amigos do rei e pelos bobos da corte, e já chega de tragédias. Paz...
É inútil esperar que mídia deixe de ser sinônimo de quem faz média, e mais inútil ainda é ficar se lamentando. Queremos uma comunicação livre, em que as idéias, e não os interesses do governo ou de um fabricante de salsichas, é que definirão o conteúdo das informações? Então, cabe a nós fazê-la, e quantos mais de nós a fizermos, tanto melhor, pois estaremos pluralizando os fatos, apresentando-os à sociedade sob as mais variadas óticas, permitindo a quem receber a informação refletir e tirar suas próprias conclusões. Este é o papel da comunicação.
É comum a queixa de que nosso povo não tem memória, é mal informado, e tal e coisa e coisa e tal. Mas o que fazem muitos dos indignados de botequim para reverter tal situação? Do boteco mesmo, entre uma birita e outra, poderiam estar fazendo alguma coisa, tipo escrevendo um texto para ser publicado em um fanzine, ou lido em um programa de rádio comunitária, dividindo seus conhecimentos com quem não tem ace$$o aos livros, à cultura e muito menos a uma cadeira na faculdade. Ficar vomitando teorias revolucionárias – e, às vezes, uma lingüicinha que não bateu bem – sem praticá-las, é muito, muito pouco.
Dá trabalho? Sim, e muito, mas dá uma satisfação danada também. Pelo nº 00 deste zine, lançado em agosto último, recebemos um bocado de palavras de incentivo de quem o leu, um punhado de críticas também, e o mais legal: uma porção de pedidos de pessoas querendo participar. Por isso, a partir desta edição, a coluna FROTA PIRATA será um espaço permanentemente aberto à participação de nossos leitores, seja através de charges, cartuns ou de textos, como o da coluna de estréia, em que Meola (com a participação do “nosso” Bizarro) traça um retrato bacana da história da fanzine.
Na coluna PAPAGAIO, relatando duas importantes conquistas da comunicação comunitária, apresentamos exemplos reais de quem faz as mudanças, não esperando que elas sejam feitas por quem só faz jogar água nas chamas de transformação popular.
Falando em água, ela é o tema da coluna CARTOGRAFIA desta edição, que ainda tem as colunas BÚSSOLA e GARRAFA apresentando uma outra visão sobre essa guerra que é o batismo de sangue do século XXI, as colunas LUNETA e CAIS apontando a hipocrisia comum a dois universos distintos, o do entretenimento e o do sexo, a coluna BAÚ cumprindo o seu papel de não deixar a citada falta de memória prevalecer, para o que, nesta edição, também colaboram as colunas PORÃO e TABERNA, ambas em homenagem ao saudoso Jackson do Pandeiro, e, para dar fim a essa prosa, a poesia de Roberto Draps em ESPECIARIAS.
Modestamente, seguimos fazendo a nossa parte, torcendo para que surjam 600 publicações semelhantes, fato que, longe de nos tornar concorrentes, nos fará aliados nessa dura tarefa de promover transformações sociais – e estas, por menores ou maiores que sejam, sempre se darão, primeiro, pela palavra.
Falemos, então.
Salve, salve, e até dezembro!
Marcelo Carota

* ** ** ****

* Abração pra você Marcelo, Pirata *

* Abraços pros moços e pras moças *

4 comentários:

adelaide amorim disse...

já conheço o Pirata, gosto dele e fico pensando em meus tempos de faculdade...
beijo, querida.

Vais disse...

Olá Adelaide,
seja sempre bem-vinda.
Outro dia, numa roda, conversávamos sobre uns jargões, e um deles foi aquele que diz, que depois dos 60 não se é mais comunista/rebelde/libertário..., como assim né?
Sabe Adelaide, tenho pra mim, e não sei não, mas penso que algumas lutas poderiam ser atemporais, mas cada um cada uma.
beijo pela visita

Loba disse...

Ah, este Marcelo Carota é um dos meus ídolos de arne e osso! Gosto dele um tantão!!!
Bom ler este velho-novo texto!
Beijocas

Vais disse...

Ei Loba,
aquele rapaz é bom das letras,
o Marcelo é um moço querido
beijo procê