quarta-feira, 27 de agosto de 2008

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Aberração

De segunda à sexta
a procissão segue no subsolo de Venda Nova
Tudo é substituído:
Os andores e velas por carteiras e papéis
As rezas e ladainhas por lamentações
Oras andam, sentam, seguem
Semblantes carregados os levam
Não são seres, são investimentos.
Pobres, jovens e velhos
Crianças correm pelas linhas amarelas
Homens e mulheres
Eles andam, encostam, sentam
Quando chegam ao final
buscam fundos, seguros, bolsas, programas
E quando saem com as misérias nas mãos
Sob o sol, miseráveis outros os espreitam
Em busca dos míseros direitos.

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

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A Ocupação

Tudo vazio. A sala vazia.
Num furacão, tudo se enche.
Menos a sala, continua vazia.
Os fantasmas do passado
aliaram-se aos do presente
foram expulsos dos quartos
alojaram-se nos cantos da sala.
Quando a sala se encher
Pendurar-se-ão nas réguas T
De ponta-cabeça nas paredes.

domingo, 17 de agosto de 2008

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Quaisquer Rimas

Ele vira, por ali não conseguira nada.
Acredita no tempo que virá,
e fará um bolinho de cará
de qualidade rara,
pois consigo já tinha
sal, pimenta verde e cebolinha.

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

domingo, 10 de agosto de 2008

estou com a macaca

Em fevereiro de 2000, foi assassinado por isquinredes, no centro de São Paulo, o moço Édson Néris da Silva, ele era homossexual.

E há quem pergunte: e daí? teve o que mereceu, iria pro inferno mesmo!
E eu acho ‘engraçado’ e pergunto: quem, meu querido e amado Deus, definiu quem vai pro céu ou pro inferno? Quem? Raimundo Nonato?
Ganhei de presente uma bíblia. Ela fica na estante, lá, esperando, com suas fitinhas, marcando por onde começarei, um dia...
Passei a não gostar de 'igrejas'. Passei a não me considerar uma pessoa cristã, mas carrego cruzes no pescoço. Tenho uma de acrílico pintada com as cores preta, verde, amarela e vermelha, foi presente.

Quando, na época da Santê, numa conversa com os meninos punks, o Gauba vira e fala que a solução para a sobrevivência do planeta, seria a extinção do ser humano, aí minha cabeça explodiu. O impacto não é brinquedo não.

E as crianças? Quem sabe se elas não pudessem ser índias?

Outro dia, trocando uma idéia com uma esposa de um pastor, ela falava sobre o final dos tempos, então falei que os profetas foram muito pessimistas.

Eles não pensaram que depois de Jesus viria Gandhi, Che, Marx, Rosa Luxemburgo, a Comuna de Paris, o maio de 68, Paulo Freire, Florestan Fernandes, Margarida Alves, o MST, Fidel, Zapata, Sandino, Hugo Chavez, Victor Jara, Zumbi, Lampião e Maria Bonita, Chica da Silva, Clara Zetkin, Luther King, Malcom X, a queima dos sutiãs, Reich, Freud, Gramsci, a liberdade do amor, a teologia da libertação, o movimento das massas, ...

O Som!!!!!!!
de uma guitarra de blues

B B King

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Ai Chico, fôfo, tá valendo!

Rascunhei a postagem, quais mudanças, logo abaixo, numa das agendas bacanas, uma de 2004, e quando terminei, fui satisfazer minha curiosidade e li o escrito da página:

não, não fuja não
finja que agora
eu era o seu brinquedo
eu era o seu pião
o seu bicho preferido
sim, me dê a mão
a gente agora já não tinha medo
no tempo da maldade
acho que a gente não tinha nascido
Chico Buarque

* * * * * * * *
quais mudanças

Será possível que num terrível dia chegaremos a isto?
Pronomes Pessoais do Caso Reto:
Eu
Tu
Ele, Ela
a gente
Vós
Eles, Elas
O que será do Nós Nos Conosco?
Entre tantas, vão algumas de Nós:
Vamos, haveremos, pedimos, encontraríamos, tínhamos, amamos, apaixonamos, transamos, plantamos, subimos, trepamos, cantávamos, gostássemos, caminháramos, ensaboamos, fluímos, nasceremos, morreríamos, floresceremos, chovíamos, ventamos, tornarmos, poderíamos, fôssemos, indignaremos, festejamos, dançaremos, cantaremos, comeremos, beberemos, ...
O Sommm!!!!
Descobri que este disco é ótimo, antes só ouvia a Maria dos Santos, por causa do balanço.

MARIA DOS SANTOS (Alceu Valença/Don Tronxo)
Um certo dia eu perguntei a Maria
Se hoje é noite de São João
Meu quarto tem bandeiras
Eu perguntei a Maria dos Santos
Seu nome era Benedito da Lagoa
E tinha vinte e quatro anos de folia
E vinte anos de agonia
No coração
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quarta-feira, 6 de agosto de 2008

ir manas

três flores

o jardim de amigos tem vasta vegetação e no meio dela há três flores. uma doce que quase desmancha. outra forte e bela. e aquela esguia, haste flexível, inquebrável quase. cada uma carrega seus espinhos e nuances destacadas. é com amor que elas se olham. cada uma equidistante. a flor bela foi pro norte, virou vitória régia. e nada agora no rio turvo que não perene. as outras se entristeceram, mas são fortes e torcem para o rio calmo chegar logo. a outra quer um passarinho ou borboleta. semeia nela. traz do vento a semente rápida. traz pro ventre. tem doçura demais na espera. a terceira está comprimida. uma grade alta ou tela trançada cresceu em sua volta. mas o jardineiro logo vai ver isso. tem amor demais nesse campo florido de três espécies. é flor.

Beijão Nandecas, Jajá e Regis.

O Sommmmm!!!

Apesar da capa aí do lado, toda linda, tenho é uma fita deste disco, e como escutei e ainda escuto esta fita.



Beijos.

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

pirata zine-ano 1-n. 1-out/01

DIARIO DE BORDO

FALANDO E ANDANDO


Conforme um postulado da física, “em algum ponto do infinito, duas paralelas se encontram”.
Com esses conflitos internacionais recentes, a mídia tem-se mostrado disposta a derrubar esse postulado, pois da forma como os fatos têm sido reportados, torna-se impossível, mesmo no mais remoto ponto do infinito, um encontro da verdade com a notícia.
Com chamadas e manchetes hiperbólicas (“o maior” isso, “o pior” aquilo outro, etc) seguidas por imagens sombrias ou comoventes, são destacados apenas os efeitos dessa guerra (o pânico e o desespero dos inocentes de ambos os lados, “erros” de alvos, morte de civis etc), mas de modo algum são destacadas as causas disso tudo, as quais são apenas sugeridas, e o que é pior, se não erradas, certamente incompletas. Omite-se, por exemplo, a estranha sociedade que, até tempos atrás, os EUA mantinham com Bin Laden.
Somando-se essa tendenciosa manipulação à irresponsável especulação de fatos, como a possibilidade dessa guerra trazer conseqüências terríveis até para quem não está diretamente envolvido, começando pela caixa postal e terminando sabe-se lá onde, a mídia incutiu em um bom número de pessoas a ilusão de que uma guerra pode até não ser justa, mas pode ser “justificável”, e salve-se quem puder.
A mídia brasileira, paralelamente a esse globalizado (toc, toc, toc) “pragmatismo da paz”, em que vale tudo para se ter paz, inclusive mandar o diálogo e o adversário para o beleléu, também tem criado uma outra falsa ilusão, já absorvida por muitos, de que o Brasil, “apesar de tudo”, vive em paz. Que paz, cara pálida? Só se for em termos militares, pois vivemos em uma economia de guerra, com direito a racionamento de energia, desemprego, fome, violência social, falência do sistema de saúde, com a cultura monopolizada pelos amigos do rei e pelos bobos da corte, e já chega de tragédias. Paz...
É inútil esperar que mídia deixe de ser sinônimo de quem faz média, e mais inútil ainda é ficar se lamentando. Queremos uma comunicação livre, em que as idéias, e não os interesses do governo ou de um fabricante de salsichas, é que definirão o conteúdo das informações? Então, cabe a nós fazê-la, e quantos mais de nós a fizermos, tanto melhor, pois estaremos pluralizando os fatos, apresentando-os à sociedade sob as mais variadas óticas, permitindo a quem receber a informação refletir e tirar suas próprias conclusões. Este é o papel da comunicação.
É comum a queixa de que nosso povo não tem memória, é mal informado, e tal e coisa e coisa e tal. Mas o que fazem muitos dos indignados de botequim para reverter tal situação? Do boteco mesmo, entre uma birita e outra, poderiam estar fazendo alguma coisa, tipo escrevendo um texto para ser publicado em um fanzine, ou lido em um programa de rádio comunitária, dividindo seus conhecimentos com quem não tem ace$$o aos livros, à cultura e muito menos a uma cadeira na faculdade. Ficar vomitando teorias revolucionárias – e, às vezes, uma lingüicinha que não bateu bem – sem praticá-las, é muito, muito pouco.
Dá trabalho? Sim, e muito, mas dá uma satisfação danada também. Pelo nº 00 deste zine, lançado em agosto último, recebemos um bocado de palavras de incentivo de quem o leu, um punhado de críticas também, e o mais legal: uma porção de pedidos de pessoas querendo participar. Por isso, a partir desta edição, a coluna FROTA PIRATA será um espaço permanentemente aberto à participação de nossos leitores, seja através de charges, cartuns ou de textos, como o da coluna de estréia, em que Meola (com a participação do “nosso” Bizarro) traça um retrato bacana da história da fanzine.
Na coluna PAPAGAIO, relatando duas importantes conquistas da comunicação comunitária, apresentamos exemplos reais de quem faz as mudanças, não esperando que elas sejam feitas por quem só faz jogar água nas chamas de transformação popular.
Falando em água, ela é o tema da coluna CARTOGRAFIA desta edição, que ainda tem as colunas BÚSSOLA e GARRAFA apresentando uma outra visão sobre essa guerra que é o batismo de sangue do século XXI, as colunas LUNETA e CAIS apontando a hipocrisia comum a dois universos distintos, o do entretenimento e o do sexo, a coluna BAÚ cumprindo o seu papel de não deixar a citada falta de memória prevalecer, para o que, nesta edição, também colaboram as colunas PORÃO e TABERNA, ambas em homenagem ao saudoso Jackson do Pandeiro, e, para dar fim a essa prosa, a poesia de Roberto Draps em ESPECIARIAS.
Modestamente, seguimos fazendo a nossa parte, torcendo para que surjam 600 publicações semelhantes, fato que, longe de nos tornar concorrentes, nos fará aliados nessa dura tarefa de promover transformações sociais – e estas, por menores ou maiores que sejam, sempre se darão, primeiro, pela palavra.
Falemos, então.
Salve, salve, e até dezembro!
Marcelo Carota

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* Abração pra você Marcelo, Pirata *

* Abraços pros moços e pras moças *