quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

Desabafo



Quero falar do meu cansaço.
– Por que se é ainda nova?
Não aguento mais.
– Você ainda nem começou!
Sim, eu sei, e sei que não quero o difícil e o complicado do real, procuro o mistério.
O MISTÉRIO DA VIDA!
Ele não está somente na morte, mas na própria existência.
Por que obrigo as ondas vibrarem agressivas e maldosas?
Cansei de medir palavras sobre coisas que nem conheço direito!
Quero berrar:
Porcaria de governos que são financiados pelo poder da força armada e monetária!
Porcaria de governos que não tem no povo sua maior força!
À merda com a dominação do governo estadunidense!
Morte aos dogmas das doutrinas religiosas ou quaisquer outros!
Vomito o imperialismo na cara de todos vocês com endereço certo, e sujo meu vestido copiado da moda londrina.
Choro pelos homens e pelas mulheres deformados em sua infância e que de alguma forma conseguiram e tentam romper com a sequência, mas não choro pelos racionais que se tornaram deformadores de muitas.
Sejam conformados, pequem bastante.
A morte virá de qualquer jeito, basta arrependerem-se e serão salvos.
Por que falaria de coisas boas, como paz, solidariedade, sonhos, amizade, comunitário e sociabilidade?
Isso é coisa do passado, mas dá ibope, há quem goste!
Então podemos usá-las à vontade.
Sim, nós podemos.
E eu posso, sou hipócrita, sou humana.
- Pobre e podre mulher!
Quer ser odiada, mas prefere amar até o dilaceramento!
Eu sou assassina e neste caso talvez não sejamos cúmplices, e são muitos os assassinos e assassinas soltos que nem eu.
A tecnologia foi criada ou descoberta, não importa, ela é usada para destruir e matar.
Culpada, é como me sinto, inferior, não quero comparar-me com outros animais, pois eles nunca se sentirão assim fragilizados diante da condição efêmera da existência, finita para uns, infinita para outros.
Havendo ou não pactos pré-existenciais, passamos uma quantidade de tempo neste lugar com nomes, seres e coisas que se tornam perigosamente controlados por nós, seres humanos.
São nossas regras, nossas leis, nossas racionalidades, nossas vidas ilusórias, nossas doideiras coletivas, mas ainda assim, mesmo sem ver, sabemos que todo dia nascem flores.
Gostaria de não querer me meter mais nas confusões humanas.
“Mas não posso me cansar porque não tenho esse direito!”
(frase de um RAP do grupo Face da Morte).


(escrito em 1999 que sofreu uma edição 19-04-13)

10 comentários:

sandra camurça disse...

nâo, nâo podemos cansar, companheira. viver é lutar mas tb estou cansada. "todo dia nascem flores" e a poesia não pode morrer. vamos tomar de assalto o poder! mas não quero o poder, quero a anarquia, a contra- hegemonia, a contra-cultura, a contra-informação, a contra...a contra...acho que tou delirando...
beijos.

Lado B disse...

vontade de gritar com o corpo todo! faço coro contigo..

Marcelo F. Carvalho disse...

Texto fantástico, Vais! Lutar até quando todos estiverem surdos, porque senão, eles é que terão vencido.
Existência até a última gota.
__________________
Abraço forte!

Vais disse...

Olá Sandrinha, B e Professor Marcelo,
pensando bem, fiz por bem fazer uma alteração.
Hoje, e mesmo lá atrás, eu não forço uma lágrima, eu choro...
mas pela convivência bem próxima que tive com os anarco-punks, causa da Santê, as palavras vieram com violência, e eram (são) os comunistas, o MST, é como se tocasse na raiz...
Abraços e beijos pelos comentários

Vais disse...

Crianças são as únicas que são todas, sem distinção.

Moacy Cirne disse...

O desabafo faz parte da natureza humana, mas, como diz Sandra, não podemos cansar. Parafraseando Che: Há que desabafar, mas sem perder a ternura jamais. Sim, é preciso vomitar o imperialismo e os dogmas na cara daqueles que merecem ser vomitados. Um abraço.

Vais disse...

Sabe Moacy, sim, eu concordo com você, os vômitos têm endereço certo, e é muito bacana esta postagem ser construída com os comentários de vocês, várias mãos e cabeças.
A força, o ímpeto me fizeram mostrá-lo, assim cru... foi a Sandrinha, hoje eu tô violenta..., foi a infeliz da saída do simpático Jens y otras cositas.
E sabe mais, a parede que se tornou o recanto, tem bem um dedo do poema/processo, aquela imagem da mulher com a faca na boca...
Abraço

Ane Brasil disse...

Caramba, que tapa na cara!

Sorte e saúde pra todos!

Acantha disse...

Contundente, VAIS!!

Jens disse...

Oi Vais.
Grita em alto e bom som. GRITA com força! AHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH!PORRRRRRRA!
***
Pronto, agora alisa o vestido, ajeita o cabelo com a mão e retoma para a luta. Nós somos poucos e não podemos prescindir de você.
***
Um abraço e um beijo solidário. Sei o que estás sentindo. Já passei (passo ainda de vez em quando). Faz parte da vida.