quinta-feira, 28 de junho de 2012

coisas


Meu corpo e a pele que o cobre, retalhos dos momentos costurados, quadrados, círculos, triângulos, retângulos, ovais, polígonos regulares e i cosidos a vários pontos, correntinha, margarida, mosca, caseado, reto, aresta, aranha, cheio...
As fibras dos tecidos... (não me dou a procurar outro termo do que seria as absorções, os entranhamentos dos tecidos confundindo-se).
Quedo sentada na poltrona, a meia luz, no movimento para as novas outras repetidas formas que comporão, até que todo o revestimento se complete.
fiz o corte do corpo em uma imagem tirada da net

Passos, laços de fita, nós (des) atados. Os cordões cortados, curados caíram secos, longe do faro do cão.

Tento uma saída, e por mais do esforço, fogem, desaparecem, estouram que nem bolhas: plic plic plic ou ploc ploc ploc.
Talvez agarrá-las entre os dedos, mas escorregam. Então, eu espero, aguardo, mantenho a chama acesa e aquele sorriso.
Desço as escadas e lá estão elas espalhadas pelos cômodos, pelos cantos, grudadas nas paredes, presas no teto. Pego, passo os olhos, porém, deixo-as encadernadas, empastadas, subo os degraus e abro aqueles mesmos olhos às imagens dos dias.

Volto a 2009 quando queria mesmo, de verdade, ser uma bruxa, uma feiticeira com poderes mágicos de mover vassouras, panos, buchas, rôdos, torneiras, baldes, roupas...
Ter uma varinha, um cajado, um caldeirão que valesse para fazer isto, aquilo.
Mas, pensando bem, mais fácil seria se fosse uma cientista e construísse uns robôs por aí, por aqui.

Pisco várias vezes e balanço a cabeça, retorno vislumbrando as possibilidades de remuneração em cadeia.

Dei de varar as noites trançando lã, macramê, cosendo flores de retalhos, bordando, pregando, fuxicos, miçangas, kanzashi, inventando arcos, tiaras, colares, broches, pregadores, imaginando a oficina: canto dos retoques (reformamos, mudamos, pintamos e bordamos ao gosto, casacos e jaquetas, blusas e camisetas, saias e vestidos, calças, bermudas e shorts).
Como não posso mais tanto assim, ver o dia clarear nas mãos em movimento, recolho-me e recosto a cabeça o corpo, vou aos sonhos.
(mai/jun/12)

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Um Som!!!!!!

The Cure - Lullaby



terça-feira, 12 de junho de 2012

Fernanda Passos


Duas poesias dela, que trouxe do poesianaveia.


Sou vida

Carrego no peito um coração que pulsa e uma esponja que suga o mundo.
Sou celeiro dos pedaços colhidos ao longo das trilhas percorridas

: fruto das escolhas feitas na bruta certeza de estar aqui.

Por vezes, sou os fragmentos juntados.

Só assim existo.

Despedacei-me tantas vezes fossem necessárias e tantas outras erigi o molde mim.
Fui correnteza bravia arrastando anseios guardados em ermos espaços

: meu e de outros.

Também laguna,
quase isso e aquilo.

Agridoce, já fui.

Ave faminta em jardins de esperanças, suguei o néctar de cada flor para nutrir ilusões.
Experimentei misturas que brotam no seio vida.

Fui vida.

E porque ousei ser e não ser

[negando a homogeneidade de meus contornos]

suplantei vicissitudes.

Hoje sou paiol.

Pulsante, sorvo a concretude liquefeita,
absorvo e regurgito ais, alegrias.

Sou vida.


(Fernanda Passos)



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Densidade Poética


I

Sou densa - mercúrio
peso de anseios
carmim/visceral
passional/efêmera

Brisa a bailar
noturna/soturna
lua cheia de tudo
fase qualquer

Fractal ordenado
caótica massa
liquidez meu interior
que
: decantado
canta
a arte
na poesia
que brota
brota

II

E faço versos
enredos/descaminhos
desconexos/lógicos

na poesia
todo desordenado
ordenada desordem
mostra do sentir
absurdo/claro
ambíguo/metafórico

na poesia, amigo
só a verve

[que irradia na ponta da língua/fantasia]

transmutada em loucura/sã
no grito do poeta.

(Fernanda Passos)



quinta-feira, 7 de junho de 2012

em março de 2012



Sentei e escrevi:

Já ouvi dizer que sentir ciúmes, um pouquinho, um tantim, um tiquitim, um mucadim só que seja é prova do amor que se sente pel@ outr@.

Fico sentindo um frio na espinha com um troço destes.

Como se não bastasse, vem o reforço:

Que, se não tem ciúmes é porque não ama e nem se importa.

E o frio se espalha ao ponto do corpo gelar.

Tenho verdadeira aversão a este sentimento, a esta manifestação que acomete nosso ser e nosso estar.
Ciúme pra mim significa insegurança, doença, inveja, significa você é meu, você é minha e só tem olhos, boca, nariz, mãos, sexo, pensamentos e tal e tal em mim, é sinônimo de dominação e controle, é violento e mata.
Ciúme é o cúmulo da tosquice e contraria a livre manifestação do amor, do desejo, é aprisionante, deixa a figura nóiada, neurada, psicótica, é a merda de toda e qualquer relação.



Não me dei por satisfeita, fui aos livros:

Larousse Cultural
Ciúme: 2. Pesar, despeito por ver alguém possuir um bem que se desejaria ter: O ciúme o atormenta. – 3. Emulação, rivalidade. Bot. Nome de uma planta... Psiq. Delírio de ciúmes ou paranóia de ciúmes, convicção delirante de ser traído pelo parceiro(a) ou companheiro(a). O delírio crônico de ciúmes ou paranóia crônica de ciúmes sobrevém nos indivíduos paranóicos e consiste numa variedade do delírio passional. Os indivíduos tem a priori a convicção de serem traídos, na maioria das vezes sem fundamentos reais. Todavia, o indivíduo apresenta, em todos os outros domínios, um pensamento coerente e comportamento adaptado. Freud e J. Lacan mostraram que o ciúme exagerado, como no delírio de ciúmes, encobre desejos de infidelidades projetados no parceiro e o interesse homossexual pelo rival.

Novo dicionário brasileiro melhoramentos
Ciúme: 1. Inquietação mental causada por suspeita ou receio de rivalidade no amor ou em outra aspiração. 2. Vigilância ansiosa ou suspeitosa nascida dessa inquietação. 3. Ressentimento invejoso contra um rival ou suposto rival mais eficiente ou mais bem sucedido, ou contra o possessor de uma vantagem material ou intelectual cobiçada. 4. Bot. Arbusto (...)

Aurélio
Ciúme: 1. Sentimento doloroso que as exigências de um amor inquieto, o desejo de posse da pessoa amada, a suspeita ou a certeza de sua infidelidade, fazem nascer em alguém. 2. Emulação, competição, rivalidade. 3. Despeito invejoso; inveja. 4. Receio de perder alguma coisa. Bras. Designação comum a arbustos ornamentais (...)

terça-feira, 5 de junho de 2012

UM POEMA do Diário Extrovertido



ACERCA DE UM MURO

Tudo tem uma razão
E essa parece ser a maior loucura.
Tudo, tudo.
Mesmo esse musgo,
Hemangioma verde na face do muro,
Insurgência de respiros
Esquecidos e mudos.
Há mesmo vida nisso?
Nesse indício de que nada jamais
Está abandonado?
Sequer um muro que separaria
O banal do insignificante.
Mas tem razão suficiente também
Tudo o que não está do lado de lá
Ou de cá do muro, mas em seu íntimo poroso.
Pode haver razão para que um fio de cabelo
Tenha se agregado à argamassa,
Se um cabelo tem biografia
Até o ponto em que fugiu de uma cabeça
Igualmente murada,
E para a alvenaria daquela cabeça eram os cabelos
Como musgo.
E o fio de cabelo antes externo ao crânio,
Agora estaria interno ao muro e haveria razão para isso.
Mas de quem seria tal cabelo ninguém perguntaria,
Sem perceber que ele é uma espécie de digital
Em filamento que o vento leva,
O vento também nunca eventual e cheio de razões.
Pior: pode ser que o muro sepulte
Algum fragmento de pele ou uma gota de sangue
De um pedreiro que se ferira.
Seria uma involuntária assinatura,
Pois nenhum pedreiro assina e data um muro,
Embora possa reter esse muro um afresco invisível
Do esforço inexpressivo do pedreiro,
Num momento de sua vida em que, talvez,
Sua filha estivesse enferma ou sua mulher grávida,
Ou quando estivesse pensando em ter de comprar
Carne para o almoço do dia seguinte,
Tantos e tantos tijolos depois.
E deve ter havido razão para que esse pensamento
Ocorresse à altura do assentamento do nonagésimo
Nono tijolo.
Ah, esses tijolos têm suas razões, e o próprio emboço
Que a eles oculta como ossos ou músculos
De um corpo que não irá a lugar algum,
Salvo quando for demolido e removido
Na forma de entulho,
Tal como os corpos que se movem e têm vontade
Também o serão.
Tem igualmente a demolição razões que julgamos sombrias.
E esse monturo prolixo que se acumula na base do muro,
Partes reagrupadas sob o desígnio de lixo,
Também tem sua razão.
A ratazana que percorre o muro à noite e alcança um telhado
Também tem sua razão.
E o pardal que nele pousa e ali bica qualquer coisa,
Uma merdinha de grão,
Também tem sua razão.

Só a palavra que grafitei de passagem no muro,
Embora as tenha, não quer ter razões.
E isso é uma loucura maior ainda. 

mistérios e contradições



Não precisam muitas, bastam poucas palavras pra que eu abra, arreganhe, escancare...
Rompo o casulo, o ovo de mim.
Nem que, por vinte e quatro horas;
Nem que, por a vinda do bico de um pássaro ou de uma língua de sapo;
Nem que, por a rede, e que no movimento, vá parar na ponta do cone.
Borboleta, mariposa, libélula: aos ares.
Mas, por azar ou sorte, entro pela abertura, atravesso o gargalo e quedo no fundo, junto à página, e com ela arrolhada, lançadas ao mar.


Um Som!!!!!

Nicolas Krassik - Corsário (João Bosco e Aldir Blanc)