segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

uma historinha

Guardo esta historia há mais de 10 anos, ela foi imaginada e rascunhada quando morava em Viçosa. Tudo aconteceu depois de uma noite em que fui convidada para um churrasco no meio do mato. O terreno da UFV – Universidade Federal de Viçosa – é grande, cheio de trilhas e muito verde, árvores e pequenas clareiras, numa destas trilhas que explorávamos foi escolhida como local. Os meninos, dois rapazes, ficaram incumbidos dos tocos de eucalipto para fazer carvão e da cachaça e eu com a parte das asinhas para o churrasco. Para iluminar, pois seria de noite, levamos velas. Marcamos para uma noite de festa na universidade onde os vigias estariam bem ocupados.
Como a imaginação borbulha de detalhes tentarei encurtar.

 imagem: net/ colei a abelha 


A ABELHINHA COM ALMA DE MARIPOSA
Era uma vez...
Natureza-mãe, mãe das abelhas, das mariposas.
Num lugar não muito distante, sem castelos, príncipes ou princesas, mas com uma rainha e muitas operárias, em um Recanto, uma colméia.
E eis que em um belo dia de verão, quente e de sol a pino, nasce uma abelhinha igual a todas aparentemente, sua diferença era outra, ela nascia semelhante, mas sua alma pertencia a outra espécie, a das mariposas. Ninguém na colmeia poderia dar por esta diferença, assim de imediato, não era aparente, pertencia às entranhas, as coisas aconteceriam mais pra frente.
Tudo transcorria normal desde seu nascimento, até o momento, ainda na infância, que marcaria o resto de sua vida.
Depois de um dia de aprendizados e trabalho, quando todas voltavam para a colmeia, de repente, depararam-se com um fumaceiro vindo de um fogaréu. Enquanto as outras zuniam agitadas tentando voar pra longe, nossa abelhinha parou, hipnotizada, a quentura percorrendo todo seu corpinho até às asas. Parou encantada e de olhos arregalados percorria as cores que se mostravam, cores intensas, vermelho, amarelo, laranja, azul. O que era aquilo? Se perguntava. Sacudida e tirada foi puxada por uma adulta para longe dali, ela nada ouvia das abelhas grandes e nem das amigas que zumbiam doidinhas, desesperadas. Ao ser levada de volta, reparou sim, em outras voadoras que vinham ao longe bailando e entoando sons diferentes, pareciam até cantar.
Ao chegar segura na colmeia quis saber o que era aquilo que havia visto e foi logo despejando:
- Que cores eram aquelas tão bonitas e tão cheias de calor? De onde vieram? Qual é o seu nome? Quem fez aquilo?  
Foi o bastante para paralisar todas as abelhas que ali estavam, o choque com as perguntas da pequena foi maior que o susto de há pouco, então uma das mais velhas disse:
- Pequenina, acaso quebraste as antenas? Aquilo que nos fez arder olhos e nos fez tossir é a fumaça e o que estava atrás, embaixo, do lado dela é o fogo. Ele queima, temos medo dele e acabaria com ti num segundo.
A abelhinha não se importou com aquelas palavras e ainda mais curiosa:
- De onde o fogo (experimentando o som), o fogo vem, como ele aparece? E aquelas outras que chegavam, quem eram, de onde vieram?
- Chega! Você precisa de descanso e se acalme, pode ter batido a cabecinha. É bom que fique longe daquelas, elas são as mariposas, são adoradoras, dizem até fazer sacrifícios. Mas isto não é assunto pra ti. Vá!
Ela se foi, mas desde este dia nada mais seria como antes. Ela queria mais, queria saber mais sobre o fogo, queria saber mais sobre as mariposas e decidiu, tinha que ir embora.
Mas o tempo foi passando, e a abelhinha crescendo, se tornara uma jovem abelhinha graciosa e formosa, forte e corajosa. Sempre a cumprir com seus afazeres de operária, no entanto sempre que surgia ou ela fazia surgir uma oportunidade saia à procura do fogo. E sozinha ia, e quando podia sentir fumaça sabia que tinha fogo, ia voando e ao chegar perto parava e ficava por tempos lá olhando e sentindo. Um dia resolveu chegar mais perto e não soube descrever o que passou com ela, desde as antenas passando pelas asas até o ferrão, ficou maravilhada, extasiada, quase um transe, não entendia porque ficava assim tão fascinada e atraída. Neste dia viu as mariposas de perto, eram as grandes, havia uma beleza em suas asas, e como elas pareciam livres e belas e tão seguras.
Não entendia o que se passava com ela, um medo, um desejo, mas não agüentava mais, tinha que ir embora.
Numa noite, largou tudo para trás e se foi.
Alguns dias se passaram... e muito se deu nesses dias. 
E em uma noite mais adiante, ela voando, procurava um lugar para descansar, foi quando ouviu estranhos barulhos e ao longe pode perceber pontos de luz, as anteninhas logo se esticaram e ela excitada voou naquela direção.
Voou entre as árvores, chegou a uma pequena clareira onde três seres estavam, ainda não havia visto tipos como aqueles, gigantes, eram retos, usavam somente duas pernas para se locomoverem e as outras duas usavam para pegar coisas, e ela pode escutar além do som que faziam com a boca outros sons que vinham de uma caixinha, gostou daquilo. Foi quando viu as brasas, já sabia das brasas e pode ver em três pontos diferentes, grudadas nas árvores três coisas compridas, brancas e na ponta de cada uma, uma chama, uma labareda, um pequeno fogo. Nunca tinha visto fogo assim pequeno, parado, apenas uma chama que brincava com o vento indo e vindo, oras parecia que ia apagar, mas de repente aumentava. Resolveu chegar perto da que estava mais ‘dançante’ e sem medo se aproximou.
- Olá! Eu sou a abelhinha.
- Olá, abelhinha, eu sou a chama de uma vela ou o fogo de uma vela, como você preferir.
- Vela? O que é isto?
- Você vê este corpo comprido, ele é feito de cera e bem no meio tem um cordão, é o pavio, o que queima e faz a chama que você vê.
- E como é?
- Estes que você vê acendem o pavio e vou queimando devagar à medida que a cera vai derretendo.
- Aaaaahhhhh! E nós podemos brincar? E você pode me contar tudo o que você sabe?-Pede a abelhinha.
- Claro minha pequena, mas estou preso aqui.
- Não importa vamos nos divertir.
Assim começou a amizade entre a abelhinha e aquela chama, o fogo de uma vela. Assim passaram aquele tempo conversando, brincando, dançando, fazendo sombras, a abelhinha contava dela e a chama explicava tudo que sabia sobre si e mais.
E a cera foi derretendo.
Pouco antes do pavio queimar totalmente ele fala à abelhinha:
- Preciso ir querida abelhinha, se cuida e fique longe dos grandes, foi um prazer conhecer você e passar uma noite, uma existência tão agradável.
- Eu verei você novamente?
- Sim, você me verá em outras velas. Adeus, abelhinha!
E a nossa pequena abelhinha muito emocionada e feliz, no último instante da chama, ela voa para dar um abraço de despedida em sua nova amiga. A chama e a abelhinha que havia nascido com alma de mariposa se apagam no abraço.


FIM

4 comentários:

Loba disse...

Como sua abelhinha, já tive alma de mariposa. Mas diferente dela, nunca tive a candura com que vc a descreve. Talvez por isso ela tenha sobrevivido à chama e eu tenha me queimado tantas vezes! :)
E o que será que andou fazendo a abelhinha nestes mais de dez últimos anos?
Um belo 2012, moça. Pra vc e pras meninas.
Beijocas

Vais disse...

Saudações, querida Loba, e com muito prazer de ter você por aqui.

Mas, Loba e não temos nossos podres, nossas cicatrizes de queimadas e ferroadas, de um lado pro outro e vice versa?

Mas, minha querida a abelhinha também se vai com a chama

:)E nestes mais de dez últimos anos a alma-mariposa da abelhinha andou zuando por aís aquis :)

Grata pelo carinho e pra vocês em dobro, triplo...♥♥♥♥♥

beijo grande

Assis Freitas disse...

se amalgamaram em espasmo feérico, invenção de fogo



beijo

Vais disse...

um entrelaçamento mágico, Assis

beijinho