sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Rosa Luxemburgo e Elis Regina


Uma carta da prisão a Sonia Liebknecht
Breslau, antes de 24 de dezembro de 1917.


(...) Ontem fiquei muito tempo acordada – agora não consigo dormir antes da uma, mas preciso ir para cama às 10 porque a luz é apagada –, e então no escuro sonho com diversas coisas. Ontem então pensava: como é estranho eu viver permanentemente numa alegre embriaguês, sem nenhuma razão particular. Assim, por exemplo, estou aqui deitada nesta cela escura, num colchão duro como pedra, enquanto à minha volta, no edifício, reina a habitual paz de cemitério; parece que estou no túmulo. Através da janela desenha-se no teto o reflexo do bico de gás ardendo a noite inteira diante da prisão. De tempo em tempos ouve-se o ruído surdo de um trem que passa ao longe, ou então, bem perto, debaixo das minhas janelas, o pigarro da sentinela que, com suas botas pesadas, dá alguns passos lentos para desentorpecer as pernas. A areia estala tão desesperadamente sob esses passos que todo o vazio e a falta de perspectivas da existência ressoam na noite úmida e sombria. E aqui estou deitada, quieta, sozinha, enrolada nos véus negros das trevas, do tédio, da falta de liberdade, do inverno – e, apesar disso, meu coração bate com uma alegria interior desconhecida, incompreensível, como se debaixo de um sol radiante estivesse atravessando um prado em flor. No escuro, sorrio à vida, como se conhecesse algum segredo mágico que pune todo mal e as tristes mentiras, transformando-as em luz intensa e em felicidade. E, ao mesmo tempo, procuro uma razão para esta alegria, não encontro nada, e tenho que sorrir novamente – de mim mesma. Creio que o segredo não é outro senão a própria vida; a profunda escuridão noturna é bela e suave como veludo, basta saber olhar. No estalar da areia úmida sob os passos lentos e pesados da sentinela canta também uma bela, uma pequena canção da vida – basta apenas saber ouvir. Nesses momentos penso em você. Gostaria tanto de passar-lhe essa chave mágica para que você percebesse sempre, em todas as situações, o que há de belo e alegre na vida, para que também você viva na embriaguês, como que caminhando por um prado cheio de cores. Longe de mim a idéia de contentá-la com ascetismo, com alegrias imaginárias. Concedo-lhe todas as verdadeiras alegrias dos sentidos que você deseja. Só gostaria de dar-lhe também a minha inesgotável serenidade interior, para não me preocupar mais com você, para que andasse na vida com um manto de estrelas protegendo-a de tudo que é mesquinho, banal e angustiante.
(...) Ah! Sonitchka, passei aqui por uma dor violenta. No pátio onde passeio chegam muitas vezes carroças do exército, abarrotadas de sacos, de túnicas velhas e camisas de soldados, muitas vezes manchadas de sangue...; são descarregadas, distribuídas pelas celas, consertadas, novamente postas nas carroças para serem entregues ao exército. Outro dia, chegou uma dessas carroças, puxada não por cavalos, mas por búfalos. Era a primeira vez que via esses animais de perto. São mais fortes e maiores que os nossos bois, têm a cabeça chata, chifres curvos e baixos, e uma cabeça totalmente negra, de grandes olhos meigos, que lembra a dos nossos carneiros. Originários da Romênia, são um troféu de guerra... os soldados que conduziam a carroça diziam ser muito difícil capturar esses animais selvagens, e ainda mais difícil utilizá-los para carregar fardos, pois estavam acostumados à liberdade. Foram terrivelmente maltratados até compreenderem que perderam a guerra e que também para eles vale a expressão “vae victis” [ai dos vencidos]... Só em Breslau deve haver uma centena desses animais; acostumados que estavam às ricas pastagens da Romênia recebem ali uma ração parca, miserável. Trabalham sem descanso puxando todo tipo de carga e com isso não demoram a morrer. Há alguns dias então uma dessas carroças cheia de sacos entrou no pátio. A carga era tão alta que os búfalos não conseguiam transpor a soleira do portão. O soldado que os acompanhava, um tipo brutal, pôs-se a bater-lhes de tal maneira com o grosso cabo do chicote que a vigia da prisão, indignada, perguntou-lhe se não tinha pena dos animais. “Ninguém tem pena de nós, homens”, respondeu com um sorriso mau e pôs-se a bater ainda com mais força... Os animais deram finalmente um puxão e conseguiram transpor o obstáculo, mas um deles sangrava... Sonitchka, a pele do búfalo é proverbialmente espessa e resistente, e ela foi dilacerada. Durante o descarregamento, os animais permaneciam imóveis, esgotados, e um deles, o que sangrava, olhava em frente e tinha, na cara escura e nos olhos negros e meigos, uma expressão de uma criança em prantos. Era exatamente a expressão de uma criança que foi severamente punida e que não sabe por qual motivo nem porquê, que não sabe como escapar ao sofrimento e a essa força brutal... eu estava diante dele, o animal me olhava, as lágrimas saltaram-me dos olhos – eram as suas lágrimas. Ninguém pode sofrer mais por um irmão querido do que eu sofri na minha impotência com essa dor silenciosa. Como estavam longe, perdidas, inacessíveis, as pastagens da Romênia, essas pastagens verdes suculentas e livres! Como tudo lá era diferente, o brilho do Sol, o sopro do vento, como eram diferentes os belos cantos dos pássaros ou o melodioso chamado do pastor. E aqui – esta cidade estrangeira, horrível, o estábulo sombrio, o feno mofado, repugnante, misturado com a palha apodrecida, os homens desconhecidos, assustadores, e – as pancadas, o sangue que corre da ferida aberta... Oh! meu pobre búfalo, meu pobre irmão querido, aqui estamos os dois tão impotentes e mudos, mas somos só um na dor, na impotência, na saudade. Entretanto os prisioneiros agitavam-se em volta do carro, descarregavam os pesados sacos e arrastavam-nos para dentro; já o soldado enfiara as mãos nos bolsos das calças e percorrendo o pátio com grandes passos, ria e assobiava baixinho uma canção da moda. Diante de mim a guerra desfilava em todo o seu esplendor.
Escreva logo.
Abraços, Sonitchka,
Sua Rosa
Soniuscha, querida, fique calma e alegre apesar de tudo. Assim é a vida. É preciso tomá-la corajosamente, sem medo, sorrindo – apesar de tudo. Feliz Natal!


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Um Som!!!!
Elis Regina - Cais

7 comentários:

Jorge Pimenta disse...

seja nas tuas palavras ou nas dos outros, há sempre um cheiro a vida (como ela exatamente é) nos textos que aqui nos deixas.
"Diante de mim a guerra desfilava em todo o seu esplendor." - haverá maior verdade nas relações humanas do que esta?
beijinho, vais!

Assis Freitas disse...

viver é sempre esse delírio que afoga: nunca estamos imunes, apesar



beijo

Vais disse...

Jorge, vou te contar que esta carta da Rosa me causa uma emoção tão forte de vida de força de propósitos de luta do prazer de estar viva apesar de tudo

ah, Jorge, e as verdades nas relações humanas!

beijos

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Assis, entre mergulhos, delírios, afogamentos, me vieram os movimentos do coração, viver é sístole e diástole.

beijos

LauraAlberto disse...

as prisões são construídas pelo Homem, não para os condenados, à sua volta
falta saber se somos prisioneiros ou guardas

beijinho
LauraAlberto

Vais disse...

Sabe, Laura, tenho a impressão que somos tudo isso, condenados, prisioneiros, guardas e tem hora que tudo dá uma gastura, uma vontade danada de não ser gente, de não ver ouvir falar pensar nada que se refere a ser racional quando diante de tantos horrores e tanta mesquinharia e tanta decadência, mas aí os mesmos olhos levantamos para o céu ou baixamos para a terra ou alinhamos com o horizonte e vislumbramos um ponto

beijos querida moça e sempre grata pela presença ♥

Cissa Romeu disse...

Vais,
emocionante esta carta da Rosa.
Certa vez assisti a um filme sobre a vida dela, me esqueci completamente o diretor. Maravilhoso! Todo o ideário e força daquela mulher, aqui expresso nessas letras.
E a Elis Regina, minha conterrânea, creio que completa a proposta.
Muito bom!

Vim aqui para te agradecer pelo carinho deixado em comentário lá no Viagens do Jorge Pimenta em razão da parceria que fez comigo.
Muito obrigada, de coração!

Beijos

Vais disse...

Saudações, Cissa,
grata pela visita e comentário e seja bem vinda
duas mulheres que cada uma no seu contexto fizeram acontecer e com o legado deixado ainda fazem

e sobre a parceria de você e o Jorge, uma composição de imagem palavras e canção muito bonitas que valem ver, ler e ouvir

e volte sempre que rolar

beijos