quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Caros Amigos – Especial - nov/07
Pós-humano
O desconcertante mundo novo




Transcrevo, da coluna ‘tempo e filosofia’, alguns trechos da entrevista(de suas respostas), feita por Thiago Domenici a Olgária Matos.

É Preciso Reconquistar o Tempo

Olgária Matos,(...) filósofa. Nesta entrevista(...) ela fala do ‘conceito de tempo e suas mutações no mundo contemporâneo’.(...). Uma visão instigante sobre os dias de hoje.

No mundo contemporâneo, a impressão que dá é que existe um ‘não tempo’, uma experiência do tempo que não passa, porque ele não se faz mais com experiências. Na verdade experiência supõe uma relação de conhecimento com valores e acontecimentos do passado que são transmitidos das formas mais diversas.

Além do que a modernidade, a partir dos séculos 17 e 18, começa a elogiar a paixão – a paixão é o excesso, e a nossa cultura valoriza o excesso.

Com o advento da luz elétrica, no século 19, o dia passou a ter 24 horas, o trabalho noturno entrou com uma voracidade de consumir todas as forças do homem, até o fim.

... mas o que era o tempo livre? Era um tempo totalmente autônomo com relação às necessidades materiais da sobrevivência, um tempo em que você se dedicava à contemplação, por mais indefinida que pra nós seja esta palavra contemplação.

Hoje não temos mais essa idéia de tempo livre, já é preenchido de coisas, então você tem um tempo inteiramente especializado, não é mais qualitativo, ele não diz respeito a propriedades representativas de um acontecimento, de uma pessoa ou de um desejo. Essa idéia de que você não tem tempo é a forma mais perversa da alienação. Marx já dizia isso, a forma mais perversa não é a alienação do trabalhador com relação ao produto de seu trabalho e ao sentido do trabalho, é a alienação do tempo, você não ser senhor do seu tempo, você é determinado pelo tempo das coisas e não escolhe mais a sua vida.

Ora, o capitalismo produz a carência, ele não quer preencher uma necessidade, quer criar necessidades ao infinito.

E como a gente fala de futuro? Fala em mercados futuros, o futuro virou mais um valor de troca. Então quando se fala: ‘os jovens não têm expectativa de futuro’ – não têm um monte de coisa porque não têm expectativa de futuro e não sabem o que fazer com o tempo. Porque esse capitalismo produz uma cultura e uma educação cuja atividade cerebral é próxima a zero.

A ciência não pensa. Ela faz. O mundo contemporâneo não pode ter filosofia, porque a filosofia pensa o pensamento. A ciência deveria pensar a ciência.

Mas esse capitalismo é inimigo do pensamento autônomo, é inimigo da liberdade, é inimigo da vida feliz e da vida justa. E não é um capitalista, é o capitalismo!

Você não tem todo o tempo da educação, que é o tempo de aprender a lidar com o tédio. Porque o tempo não existe, você tem que passar rápido para outra coisa.
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Saudações em todas as línguas e gestos!

8 comentários:

Janaina Cruz disse...

Pra mim esse post foi uma verdadeira aula!!
O capitalismo deturpa nossa consciência e nossa motivação, ele sim faz tudo ficar atemporal, a luz elétrica trouxe nos mais trabalho acabou-se o romance, acabou-se o inédito, os poemas vez por outra surgem de uma escuridão qualquer, apesar do tempo...
Feliz natal e um ano novo cheio de boas coisas....

Jens disse...

Oi Feiticeira.
Hoje, dia de Natal, meu cérebro não está em condições de analisar textos complexos. Assim, fico te devendo. Mas isto não impede que te deseje, ainda que tardiamente, um feliz Natal.

Beijo.

líria porto disse...

muitíssimo bom - aproveito para reenviá-lo a minhas filhas, cada vez mais o_cu(l)padas...

besos, querida - e boas festas

Vais disse...

Olá Janaina,
estes especiais da Caros Amigos são muito bons.
E é isto, o capitalismo destrói mesmo.
beijo grande pra você
um final de 2010 porreta e que 2011seja ainda mais
grata pela visita

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Simpático Jens,
tudo bem, moço
este texto é repeteco
e você já havia comentado
:)
Beijinho com tudo de bom
muitas delícias
e que venha 2011
abração querido

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Saudações Líria,
muito bom mesmo,
Líria, achei graça do seu jeito de dizer que vai reenviar às suas filhas.
Beijos também, querida Líria
muito de tudo de bom pra tod@s
e um 2011 arretado!

sandra camurça disse...

A Olgária é maravilhosa!
Mas essa postagem me fez lembrar aquela música do Caetano, Oração do Tempo: "és um senhor tão bonito quanto a cara do meu filho, tempo tempo tempo tempo, vou te fazer um pedido, tempo tempo tempo tempo..."
Beijo, linda
cheguei hoje de Garanhuns

Jorge Pimenta disse...

querida amiga,
o pior de tudo não é a ciência não pensar; é pensar que pensa. já a técnica nem sabe o que significa o verbo...
um abraço com carinho, celebrando esta ligação de um ano entre as viagens e (até) às últimas consequências! :)

Cris de Souza disse...

tempo bom o que nos encontramos...

beijo, vais querida!

Vais disse...

Olá Querida Sandrinha,
que você tenha aproveitado bastante o passeio
Tamos aí, aqui, ali, de novo, né?
Enquanto vivermos a realidade deste texto, ele não fica 'velho'

beijos com muitas delícias

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Pois é Jorge,
máquinas de carne
autômatos de cérebros atrofiados
e por aí vai

TIM TIM, à saúde!

grande abraço e tudo de bom

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Sim, Cris,
e que os bons ventos nos levem

Beijinhos, moça Cris.tal