sábado, 6 de novembro de 2010

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Anos atrás namorei, fui namorada de um rapaz. Ele tinha uma bicicleta laranjada e alguns apelidos, capeta, diabo, demônio, isto por ter colocado fogo na lixeira externa do departamento.
Ele me dizia: sua tradução é margarida.
Eu respondia: vim pra cá só para te conhecer.
Através dele, penetrei nos Apontamentos de História Sobrenatural de Mário Quintana.
Através dele, soube da passagem, desta pra outra, do Mestre Paulo Freire.
Com ele descobri o sentido da entrega por amor.

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. imagem: net

Existe algo além do calor derretendo os brancos flocos?
Os cobres esticados, os cabos, os aços, os fios, as correntes
...
Um dia o fogo
Subiu as montanhas geladas
Enquanto subia ia derretendo
O caminho de gelo
Naquela estrada de águas
Formada às suas costas
Brotava e brotava nos pequenos vales
Ele não sabia, não olhava pra trás

Bem no alto, no mais frio
Estava a estrela de pétalas
Macias e brancas
Plantada, enraizada
Que parecia na própria neve
Num meio abrir de pétalas, estremeceu de frio

Então sentiu...
De onde estava podia percebê-lo
Nas pontas
Nas pétalas
Agora abertas
Apontando
Experimentando
As variações trazidas pelo vento
Até que tudo se aqueceu
Até que toda uma quentura
Chegou e espalhou
Mais um estremecimento
Mas, desta vez o frio
Vinha do miolo
A estrela no alto, pressentia, não seria colhida

Das pétalas
Em sua superfície
Já não havia mais neve
As águas que escorriam
Por entre a maciez
Oras pingavam
Atingindo a pequena poça
Formada à sua volta
Oras desciam
Pelo centro
Escorrendo
Buscando os filamentos
Que se agarravam

Diante, ela dele, ele dela
Ela o experimentou
Ele a viu

- Saudações pequena estrela! Flor, encontrei-te, mas não subi a tua procura, não te colherei, terás de descer sozinha. Estarei contigo até que esteja pronta.
- Eu sei, e assim será.
(2008)
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5 comentários:

Jens disse...

Oi Vais, guardiã de preciosos veios poéticos ocultos nas entranhas da metrópole das alterosas:
Saúdo e agradeço teus versos, na qualidade de dependente inveterado de boa poesia - aquela onde a sensibilidade lírica caminha de mãos dadas com a inteligência, sob as bênçãos da inspiração.
Há sonho, promessa e esperança no fogo que transforma o gelo que aprisiona a estrela de pétalas em uma poça de águas tépidas – talvez nascente capaz de matar a sede de peregrinos em busca de um pedaço de paraíso. Certamente, não é um caminho para cavaleiros descuidados. Porém, considerando a recompensa, creio que vale a pena seguir o sinal do arco-iris.
***
Gostei de saber que um guri endemoninhado cruzou o teu caminho. Na adolescência rebelde, também já hospedei o "diabo no corpo". Há quem considere que ele ainda não me deixou. É possível. Seja como for, um resquício de inquietude ainda vive em mim. Assim, mesmo sob a ameaça de padecer no reino Lúcifer por toda a eternidade, não recuso os chamados que viajam no ventre dos ventos de primavera, que sussurrantes anunciam "o diabo na rua, no meio do redemoinho". Desdenhando a prudência, vou para a rua e me perco em meio a poeira. Xifópagos, anjos e demônios caminham entre nós. A iconoclastia dá sentido à santidade.

Beijo, Adorável Feiticeira.

Jorge Pimenta disse...

vais,
sinto, ao chegar aqui, que me sento a teu lado numa viagem por lugares sagrados da tua própria caminhada. estarei errado?
deixa-me, todavia, dizer-te que me serviste o aroma perfumado de (também a mim) longínquas primaveras.
um beijo!

Vais disse...

Olá Simpático,
moço, que lindo, fico emocionada, e nem sei mais o que dizer!
e acho mesmo que você fica é de onda quando escreve que não é poeta.
beijo querido Jens

*************

Ei Jorge,
Grata pela presença, sempre, mas me permita escrever apenas, que você não tá errado, sentado ao meu lado, nestas viagens.
Beijo carinhoso

Roy Frenkiel disse...

Esses meninos sao os melhores :-(

Cade, cade?

beijao

RF

Vais disse...

Ei Roy,
valeu pela visita, e ah! esses meninos, êta meninos!:)
beijo