quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Interferências

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(revisão dez/09)

Não basta ser mãe, tem que interferir

Saudações Querida Diretora,
Como das outras vezes que conversamos, não quero ter constrangimento nenhum para fazer estes comentários, estas observações, a partir de acúmulos que tiveram no nosso encontro de pais (mar/2009), a gota transbordante. Porque, se queremos o melhor para que as crianças, que são a base do ser humano, se tornem adultos que valorizam a vida, em todos os sentidos, temos que trabalhar para que isto aconteça. Na condição de filha e hoje de mãe, vejo ainda mais, como primeiro, devemos nos mudar, pois não dá mais pra ser como era. Fico pensando nas crianças que nascem biologicamente saudáveis e assim se tornam, criança neurótica, esquizofrênica, com os transtornos bipolares, ansiosa, violenta, possessiva. Mas o que acontece pra se chegar a esta conclusão, pois a criança não fica isto tudo por ela? Então concluo que nós pais, mães, educadores, responsáveis, devemos nos reciclar, ler bastante, e mais que tudo, praticar a teoria, teoria e prática, tentar aproximá-las ao máximo.
Pôxa vida, Diretora, por que não usar um texto da realidade brasileira, e somos também americanos, então quem são os americanos do texto ‘O preço de um filho’, qual governo americano, ou se trata de uma realidade estadunidense, da classe média dos estados unidos? Um país, Diretora, em crise, onde jovens estadunidenses saem atirando e matando nas escolas, uma população, na sua maioria, e governo, promotores das guerras e matanças em nome da democracia, da paz e da liberdade, uma incoerência, uma sociedade altamente conservadora, mas se é pra vender todo o lixo pornográfico e o lixo infantil, é deste jeito, a pior expressão de dominação. É sinistro como querem imitar tamanha decadência, e não fico vendo referências, nas relações que eles querem impor.
Quando a Pedagoga falou do conhecimento transformar, não é puramente o conhecimento que transforma, o conhecimento é uma ferramenta. Quantas pessoas se formam, em todas as áreas, que tomam esta ferramenta ao final do curso, nas universidades, faculdades, o ‘centro do saber teórico’? Elas saem detentoras do conhecimento, estão, se formam aptas para exercerem suas ‘escolhas’ profissionais, e qual é a lógica hoje do exercício da profissão? Não é o conhecimento que transforma, é a prática que tem o caminho da transformação, o conhecimento praticado com sabedoria, e mesmo não passando por uma formatura superior, tive o prazer de saber onde buscar conhecimento para práticas de relações menos destrutivas. Aqui não há a frustração da negação das universidades e escolas em geral, aqui há o desejo de rompimento com uma metodologia fracassada.
Diretora, mais que nunca, quero defender e lutar por uma liberdade real, pelo diálogo, pela conversa, e em hipótese alguma as atitudes de violência, por isto não concordo nem de brincadeira, usar a ameaça de um sapato, a criança sabendo ou não o significado disto, pois existem outros meios para que as crianças façam as tarefas com prazer, é só colocar a imaginação pra funcionar.
Tenho visto, ouvido, com imenso pesar, elogios aos tempos das educações da ditadura, fascistas, repressoras, violentas, um tempo sem respeito, onde o medo imperava, que equivocadamente é confundido com respeito, era medo da professora, da mãe, do pai, dos mais velhos, da empregada, da avó, do avô, do padre então, e isto não é respeito, é pavor, e ter respeito não quer dizer que há concordância. E quanto mais, sinto que entre Educação e violência não havia e nem há, nenhuma relação, Educação e violência são imiscíveis.
Quando foi falado das regras, pensei em acordos, nas leis, nas normas, e que o respeito aos acordos difere do enquadramento às regras, então que as regras, os acordos, leis, normas, existam para a manutenção das relações de uma convivência saudável, podendo estas regras, passarem por revisões ou até mesmo serem eliminadas para que se crie outra melhor.
As crianças não precisam acatar ordens, o I.E.V.N. não é um quartel, e aqui em casa, as meninas não obedecem a ninguém, e detesto quando falam que elas são obedientes, aqui ninguém manda, elas, nós, atendemos aos pedidos umas dos outros, e também seja mando ou pedido, tem hora, elas não obedecem nem atendem, então, imaginação pra funcionar.
Não é porque a maioria das gerações vem sendo reprimidas ao longo dos anos, onde a propensão é grande, do reprimido virar o repressor do futuro, desde a infância, que este fato tenha que ser eterno como realmente, o modelo do adulto digno de sê-lo. Não é pelo caminho da dominação, do controle de pais sobre os filhos, não é tratando as crianças como cabeças ocas pra encher, e dá-lhe as porcarias pra dentro, que teremos uma nova sociedade, e este novo só virá se houver respeito pelas crianças, para que elas cresçam sem culpas, solidárias, amantes cuidadoras, dignas, se auto respeitando e ao outro e à Natureza. Se nós adultos, pais, mães, educadores, responsáveis, sociedade, conseguirmos romper com a seqüência da violenta destruição, só assim teremos iniciado a construção de uma nova sociedade, com crianças, crescendo a partir da tolerância, do sentimento de preservação, do carinho, amor, paciência, vindos destes adultos da convivência delas, assim serão crianças que se tornarão adultas em crescimento.
Ao longo dos anos, e hoje com a modernidade tecnológica, as relações capitalistas vem alterando de forma perniciosa os objetivos da Educação, tanto nas escolas particulares, nas públicas, e raras as exceções, não estão formando mais seres humanos, o que elas fazem é prepararem os competidores para o vestibular, e uma vez nas universidades e faculdades, estas preparam os competidores individualistas e egoístas para se digladiarem dentro do excludente mercado, e o vencedor, uma vez lá dentro, ao comando do capataz alienado, o famigerado e insaciável tempo, que vai consumindo e sugando todas as energias do indivíduo, em nome da produção do trabalho, não restando muita para outras dedicações.
Atualmente, cada vez mais, Programas e iniciativas nas Escolas Públicas, Particulares, nas Instituições de Ensino e seus corpos de Professores/Educadores e funcionários, trabalham com o intuito de proporcionar outros contatos das crianças/jovens com outras realidades, tanto com atividades internas, quanto com as externas. Pode ser o contato com a terra, através do jardim ou dos canteiros dentro da escola, e fora, em plantações, são as excursões, é uma ‘rádio-recreio’ feita pelos próprios alunos, incentivando a comunicação, e tudo que se pode (re)fazer e (re)criar através da cultura, teatro, filmagens, canto, pintura, dança, culinária, meio ambiente, saúde, ciências, contação de histórias ou uma biblioteca mais interativa. Então surgem outras questões, sob qual lógica seriam conduzidas todas estas atividades, qual o sentido final, baseadas em que valores condutores da metodologia , sob quais princípios norteadores das ações e relações? Não basta termos a atividade, sendo seu acontecimento a partir da interação, seja a interação solidária ou de dominação, e muito ainda, infelizmente e para desespero, vemos o desperdício das crianças ficarem sentadas por quase todas aquelas horas escutando, nas muitas das vezes, sem poderem dar um pio, e se esvaindo o que há de melhor nelas.
É falho, na minha humilde opinião, o método de ensino, ainda hoje antiquado, retrógrado, religiosamente castrador das capacidades íntimas e das belezas interiores, um (des)ensino que reproduz a lógica infeliz, que contraria o desenvolvimento saudável, que usa das imposições, medos e culpas, para que se tenha o controle, o poder de uns sobre as outras.
As escolas, os pais, os adultos em geral, precisamos aprender muito no trato com as crianças, um aprendizado baseado em experiências de crescimento tanto para o adulto quanto para a criança.
Para muitos adultos o lidar com a modernidade junto aos filhos é uma situação completamente nova, pois existe uma abertura, mesmo pequena, da liberdade e respeito às crianças, isto não aconteceu na infância de muitos destes adultos, porque a referência é a da surra, do cala a boca, e todas estas tragédias na vida de uma criança.
Não é por este caminho que estaremos dando o melhor de nós a nossas crianças.
Diante destes fatos, nós adultos envolvidos na educação e crescimento de crianças, temos que nos permitir e buscar nos livros, na leitura, nas trocas, buscar outros caminhos a partir da negação do modelo perverso, do rompimento com a opressão, no sentido de trabalhar valores que dignifiquem a existência.
É sabido que se alguns são capazes de destruir, muitos outros são capazes de cuidar, e não será por outra via, como através do tucano, da gata, ou de uma flor, que continuará vivo, por um tempo maior, o planeta, se há que se mudar, partirá do próprio ser humano.
Querida Diretora, escrevo todos estes comentários por, a partir do texto, sentir neste início do quarto ano em nossas relações, uma alteração na exposição da metodologia. Você sabe, Diretora, sempre tive em vocês a confiança de que, não só as meninas, mas todas as crianças do I.E.V.N., estão tendo uma convivência e um aprendizado que farão muita diferença pra elas, mais do que as tantas outras instituições que só fazem enquadrar e não libertar.
Desejo ser, de todo coração, parceira de vocês, no sentido da contribuição que puder dar na formação e crescimento das crianças.
Carinhosamente,
Edelvais (mar/09)

Um comentário:

Moacy Cirne disse...

parabéns pelo texto, perfeitamente adequado aos tempos atuais.
e que 2010 seja um ótimo ano pra você e para os seus.

um grande abraço.