sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Hélio Pellegrino, Plínio Marcos

Carta de Hélio Pellegrino

O homem quando jovem, é só, apesar de suas múltiplas experiências.
Ele pretende, nessa época, conformar a realidade com suas mãos, servindo dela, 
pois acredita que, ganhando o mundo, conseguirá ganhar-se a si próprio.
Acontece, entretanto, que nascemos para o encontro com o outro, e não o seu domínio.
Encontrá-lo é perdê-lo, é contemplá-lo na sua libérrima existência, é respeitá-lo e amá-lo na sua total e gratuita inutilidade.
O começo da sabedoria consiste em perceber que temos e teremos as mãos vazias, na medida em que tenhamos ganho ou pretendamos ganhar o mundo.
Neste momento, a solidão nos atravessa como um dardo.
É meio-dia em nossa vida e a face do outro nos contempla como um enigma.
Feliz daquele que, ao meio-dia, se percebe em plena treva, pobre e nu.
Este é o preço do encontro, do possível encontro com o outro.
A construção de tal possibilidade passa a ser, desde então, o trabalho do homem que merece o seu nome.

Plínio Marcos
Por mais que as cruentas e inglórias batalhas do cotidiano, tornem um homem duro ou cínico o suficiente para ele permanecer indiferente às desgraças ou alegrias coletivas,
sempre haverá no seu coração, por minúsculo que seja, um recanto suave, onde ele guarda ecos dos sons de algum momento de amor que viveu na sua vida.
Bendito seja quem souber dirigir-se a esse homem, que se deixou endurecer, de forma a atingi-lo no pequeno núcleo macio de sua sensibilidade e por aí despertá-lo, tirá-lo da apatia, essa grotesca forma de autodestruição a que, por desencanto ou medo se sujeita,
e inquietá-lo e comovê-lo para as lutas comuns de libertação.


3 comentários:

Moacy Cirne disse...

Hélio Pellegrino sabia das coisas. E Plinio Marcos, também. Um beijo.

sandra camurça disse...

Vais, esta postagem tá sensacional! Adorei!
Beijo no coração.

Marcelo F. Carvalho disse...

Hélio me cortou e trovejou! Putz, há muito não leio algo tão comovente.
Lindo, Vais. Tremendo achado!