sábado, 24 de maio de 2008

Sobre as mãos - A Caverna de Saramago

Que estranha cena descreves e que
estranhos prisioneiros, São iguais a nós.
Platão, República, Livro VII
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(p. 82)
Horas atrás de horas, durante o resto desse dia e parte do dia seguinte, até a hora em que teria de ir buscar Marçal ao Centro, o oleiro fez, desfez e refez bonecos com figura de enfermeiras e de mandarins, de bobos e de assírios, de esquimós e de palhaços, quase irreconhecíveis nas primeiras tentativas, mas logo ganhando forma e sentido à medida que os dedos começaram a interpretar por sua própria conta e de acordo com suas próprias leis as instruções que lhes chegavam da cabeça. Na verdade, são poucos os que sabem da existência de um pequeno cérebro em cada um dos dedos da mão, algures entre a falange, a falanginha e a falangeta. Aquele outro órgão a que chamamos cérebro, esse com que viemos ao mundo, esse que transportamos dentro do crânio e que nos transporta a nós para que o transportemos a ele, nunca conseguiu produzir senão intenções vagas, gerais, difusas, e sobretudo pouco variadas, acerca do que as mãos e os dedos deverão fazer. Por exemplo, se ao cérebro da cabeça lhe ocorreu a idéia de uma pintura, ou música, ou escultura, ou literatura, ou boneco de barro, o que ele faz é manifestar o desejo e ficar depois à espera, a ver o que acontece. Só porque despachou uma ordem às mãos e aos dedos, crê, ou finge crer, que isso era tudo quanto se necessitava para que o trabalho, após umas quantas operações executadas pelas extremidades dos braços, aparecesse feito. Nunca teve a curiosidade de se perguntar por que razão o resultado final dessa manipulação, sempre complexa até nas suas mais simples expressões, se assemelha tão pouco ao que havia imaginado antes de dar instruções às mãos.
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Os comentários das últimas postagens estão respondidos.
Final de semana arretado procês.

5 comentários:

Marcelo F. Carvalho disse...

Putz, Vais... Logo Saramago! Logo esse livro!
Sou um apaixonado pela escrita "saramagueana"! Acho-o o melhor ainda vivo.
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Tem uma passagem que fiz questão de colocar na minha monografia de facul:
"...tratando-se de um palhaço pobre, ninguém irá perder o seu tempo a comprovar se as cores deste engendro de barro têm a decência de respeitar as cores com que a realidade do pobre se apresenta, mesmo quando não exerça de palhaço." (pg.81)
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Abraço forte!

adelaide amorim disse...

Saramago tem um texto incrível, Vais, mas nem sempre compreendido. Talvez porque ele vá muito fundo, e as pessoas prefiram leituras mais leves e palatáveis - embora não levem a lugar nenhum. Esse livro é um dos melhores, se não o melhor dele.

Beijos e boa semana

Jens disse...

Oi Vais.
Como sempre, um texto ótimo e desconcertante. Ou seja, um Saramago da melhor safra. Teu bom gosto prevaleceu mais uma vez. Valeu.
Um beijo.

sandra camurça disse...

Vais, de Saramago só li "Ensaio sobre a Cegueira" e "Todos os Nomes". Ambos os livros adorei. preciso ler mais Saramago. esse texto é ótimo!
beijos.

Loba disse...

Enfim, te achei!
Menina, nós somos loucas sabia? rs... coo vc, ando por aí sem deixar endereço. e depois do tant que te busquei aprendi. não vou mais fazer esta maldade a quem gosta de mim. tendeu? rs...
Impossível não ler os cmentarios anteriores ao meu, ainda que eu esteja correndo muito. E parei no da Dade. Concordo com ela: Saramago, um dos meus escritores preferidos, não é fácil de ser lido. Este livro em especial. Mas é grande o desafio que ele propõe. E desafio eu amo!
Um beijo, viu?